O COMEDIANTE

O Comediante foi encenado em 2014 por Ary Fontoura como Walter Delon e Angela Rebello como Norma, com direção de José Wilker e Anderson Cunha.

Nesta peça, o confinamento do indivíduo em um universo de thriller e suspense é o cenário dos conflitos reais e imaginários, da comicidade e da tragédia do homem que para atingir seus objetivos se deixa corromper. Se os fins justificam os meios, se a busca é a realização profissional e pessoal, nossas personagens serão implacáveis para atingi-las. E, para serem felizes, viverão o inferno constante das próprias vaidades e o céu cinzento de uma eterna representação.

O ComedianteO Comediante

FICHA TÉCNICA
Autor: Joseph Meyer
Direção: José Wilker e Anderson Cunha
Elenco: Ary Fontoura, Angela Rebello,
Gustavo Arthiddoro e Carol Loback
Cenógrafo: José Dias
Figurinista: Marília Carneiro
Iluminador: Maneco Quinderé
Trilha Sonora Original: Marcelo Alonso Neves
Diretora de Movimento: Marcia Rubin
Produtores Associados: Abefe e Chaim Produções

SINOPSE

O casarão antigo é o cenário da implausibilidade humana, dos conflitos reais e imaginários, da comicidade e da tragédia do homem que para atingir seus objetivos se deixa corromper. Se os fins justificam os meios, se a busca é a realização profissional e pessoal, nossas personagens serão implacáveis para atingi-las.

É a macieira, a “Árvore da vida”, que testemunhará o confinamento dos indivíduos em um universo de thriller e suspense, envolto pelos olhares atentos dos retratos-fantasmas de Bette Davis, Dietrich, Marylin, Greta Garbo e Teresa, a ex-mulher de Walter Delon. No antigo casarão, o público assistirá a ascensão da glória de um passado e, a cada novo dia, o declínio de um homem solitário, cujo drama tão comum ao ser humano o fará rir e se emocionar.

Walter não está só. Eric, o inescrupuloso agente, e Norma sua fiel governanta armam para que os dias no casarão sejam mais animados e menos melancólicos com o lançamento de uma biografia. No entanto, é Júlia, a sagaz jornalista, quem convida o espectador a acompanhar o drama daquele homem, o duelo constante entre as realidades com que se deparou na última semana. Ela própria, sem demora, vai concordar que Walter é um sujeito exuberante, de uma memória ameaçadora e de um humor bastante ácido. E que para serem felizes viverão o inferno constante das próprias vaidades, o céu cinzento de uma eterna representação.

Os conflitos das personagens, contudo, não são diferentes das experiências vividas pelos sujeitos comuns e mortais, tão cheios de sonhos, de vontades, de inverdades, de alegrias e medos. A trama faz um convite para que o espectador reflita sobre o tempo, a velhice, a solidão, a vaidade, a finitude do homem e, sobretudo, a vida.

O DIRETOR

“Há atores para os quais a imagem que criaram se torna o seu alterego, o seu duplo. A imagem jamais os deixa. Estão constantemente atentos à imagem, não com objetivo de copiá-la, mas porque se acham enfeitiçados por ela, sob seu poder, e atuam desta ou de outra forma porque estão vivendo a vida de sua imagem.” Constantin Stanislavski

A citação de Stanislaski parece-me sintetizar em um único parágrafo uma história contada ao longo de sessenta páginas. Ouvi dizer que esta também era a opinião do Wilker, do diretor. É esse o primeiro contato que o leitor tem com o texto. Foi assim que decidi iniciar ‘O Comediante’. Talvez, a escolhi, porque o pensamento de Constantin traz uma indicativa muito próxima daquilo que o diretor, os atores, o diretor de movimento, o cenógrafo, o iluminador, o sonoplasta, o figurinista precisavam compreender para um mergulho mais profundo na obra, para a composição inicial das personagens, dos cenários, da iluminação, dos figurinos, da trilha sonora, dos gestos, dos deslocamentos, das intenções, enfim, da ação.

O GÊNERO

A comédia é a tragédia dos outros, daí o riso, daí a lágrima.

Segundo Rene Wellek e Austin Warren, a teoria moderna de natureza descritiva e pragmática não limita o número de espécies e nem se preocupa com regras definidoras de cada gênero, admitindo misturas e o surgimento de novas espécies, assim como o hibridismo entre elas.

Na França, os atores também são chamados de comediantes (acteur ou comédien)¹, não vulgarizados num estilo único de representação, mas como profissionais que emprestam seus corpos e suas vozes para a composição de uma personagem, seja na televisão, no teatro, no cinema, no rádio, ou mesmo em performances de rua. Daí a peça ter sido intitulada ‘O Comediante’, pretendendo tratar o universo do ator. Pensei, por várias vezes, qual seria o gênero do que escrevi, ou qual seria a melhor indicativa para o leitor. Inicialmente, pensei na vida trágica, ou tragicômica da personagem principal, o Walter, mas ao analisar o drama, ou o teor melodramático imposto, ou o romance em prosa, entendi que o texto, além de ser predominantemente um Drama Realista², se encaixava em vários gêneros teatrais, ainda que norteado pela classificação de uma Comédia Realista³, mas que não se esperasse ver no palco algo cômico, no sentido popular ao qual estamos acostumados, mas uma Alta Comédia, talvez, que trata da sorte e do infortúnio dos sujeitos, cujos argumentos psicológicos e morais reagem de maneira tão igual a de todos nós.

DRAMA REALISTA²

O termo é também encontrado no cinema, na televisão, no rádio, significando um texto ficcional, peça teatral ou filme de caráter “sério”, não cômico, que apresenta um desenvolvimento de fatos e circunstâncias compatíveis com os da vida real. Na vida cotidiana um conjunto de acontecimentos complicados, difíceis ou tumultuosos pode ser um drama, assim como um acontecimento que causa dano, sofrimento, dor.

COMÉDIA REALISTA³

A reação contra o teatro romântico no Brasil aconteceu antes mesmo do esgotamento desse movimento literário na prosa, na poesia e na própria dramaturgia. […] Quando as comédias realistas francesas começaram a ser representadas no Teatro Ginástico Dramático, no Rio de Janeiro, em 1855, vários escritores e intelectuais acreditaram no alcance social desse tipo de peça e passaram a defender a ideia de que era possível criar um repertório nacional com as mesmas características. O primeiro a enveredar pelo novo caminho foi José de Alencar, que em 1857 escreveu “O Demônio Familiar”, “O Crédito” e “As Asas de um Anjo”, comédias realistas que colocam em cena a burguesia brasileira discutindo problemas sociais como a escravidão doméstica, o casamento por dinheiro, a especulação e a prostituição, ao mesmo tempo em que defende os seus valores e modos de vida.

O AUTOR

Cursei Comunicação Social, me habilitei em Jornalismo, mas confesso que o Teatro foi o grande motivador e incentivador das minhas primeiras pesquisas. Participei ativamente de algumas montagens teatrais que serviram como objeto de estudo da minha monografia de conclusão de curso. O argumento se deu pelo meu interesse no Jornalismo Cultural e pela proximidade entre analisado e analisando, como numa pesquisa de campo, onde o objeto não se distancia da atenção do seu apreciador e vice-versa. Passado algum tempo, e com alguma experiência adquirida, julguei, modestamente, que fosse o momento ideal para escrever e me aventurar no mundo fascinante da dramaturgia. Escrevi, no entanto, cinco peças para o teatro. Nunca me detive em estilos teatrais ou textuais, meu conhecimento teórico é raso demais, mas me aprofundei filosoficamente na eloquência das minhas tramas, nos conflitos das minhas personagens. Meu intuito maior sempre foi convidar o espectador a refletir o homem e sonhar a vida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ouvi dizer que o texto é pretexto para encenação e, no final da contas, como espectador, precisei concordar e reverenciar cada profissional envolvido em O Comediante. É muito belo o resultado que se vê no palco.

REFERÊNCIAS

¹Wikipedia
²Wikipedia
³Dicionário do Teatro Brasileiro, J. Guinsburg, João Roberto Faris, Mariangela Alves de Lima

NA REDE

Página da peça em Ary Fontoura
Análise de Paulo Ruch