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Calotas Volkswagen
On junho 7, 2009 | 7 Comentários

Andei visitando o passado para ver se conseguia melhorar alguma coisa dos dias presentes e futuros. É tarefa difícil, mas nada impossível. Quando compreendemos o porquê das coisas serem como são, ou terem sido como foram, experimentamos, de certa forma, a paz. O simples fato de pensarmos esses movimentos nos traz esclarecimentos das nossas atitudes de hoje. Nos últimos dias, fuxiquei compulsivamente as redes sociais em busca dos meus amigos de antes, do passado. Incrível é o poder dessa ferramenta. Reencontrei exatamente quem eu procurava há anos. Meu Deus! Como fiquei feliz. Eles são boa parte da minha história. Através deles, sou o cara de hoje, com a soma dos conhecimentos adquiridos, incluindo as experiências que nós vivemos e compartilhamos juntos, com nossos conflitos, nossas inquietações da juventude, numa época de descobertas, buscas e transgressões. Tudo me fez lembrar o dia em que lotei o meu Volkswagen Voyage 1981 com um bando de moleques, e fomos parar num lugar mágico e paradisíaco, na maior lagoa de água doce do Sul do país. O carro estava lotado e no banco de trás coube cinco pessoas de mais ou menos cinquenta quilos cada. Naquela época, éramos todos magros e irresponsáveis e um podia sentar tranquilamente no colo do outro. Contrariamos todas as regras de segurança, o que hoje não aconselho a mínguem. Para entender o que vivemos, aumente o volume do som do carro o mais alto possível e viaje cento e vinte quilômetros de asfalto lisinho, com as mais belas paisagens e rodovias distribuídas por vastos pampas, e mais vinte quilômetros de estrada de chão batido. Chegamos ao destino seguros, graças ao Bom Deus.

No café da manhã, havia um lanche nutritivo que compramos no armazém improvisado da esquina. Havia chocolate quente, pãozinho francês, queijo e uma mortadela vagabunda que todos adoraram. Cada qual comeu cinco pãezinhos. Contei. Para o almoço, uma panela enorme de macarrão coberto de salsichas embutidas e molho de tomate enlatado — banquete preparado delicadamente pelas meninas — e degustado com sofisticação pela juventude de marmanjos que adoravam contar piadas, acompanhados de Fanta Laranja e Coca-Cola. E, depois de muita praia de água doce, de muitas brincadeiras com boias de pneu de caminhão inflados, mais aquele monte de fofocas e desentendimentos, veio à hora de dormir. Agora imagine aquele monte de hormônios jogados pelas camas dos quartos e pelos colchões do chão e mais um monte de pés que roçavam seus pés uns nos pés dos outros. Aventuras clandestinas e secretas que vivemos num tempo ainda ingênuo — pensei.

Nessa rede de reencontros, a maioria não tem relação entre si, senão por terem vivido na mesma época e por gozarem de mais ou menos a mesma idade. De alguns me aproximei ao despertar o mesmo sentimento de antes, a mesma atenção, o mesmo carinho, o mesmo cuidado, a mesma vontade de estar junto mais uma vez para contemplar e recordar memórias. Outros, porém, se limitaram ao educado e civilizado cumprimento. Já outros, apareceram como anjos e permanecem diariamente por perto, mesmo que num mundo hoje distante e virtual. Pude perceber, contudo, que o cara de antes, para mim e para eles, é muito parecido com esse cara de hoje, agora amadurecido. Sei lá, coisas da vida. Fui na rede social buscar os amigos de antigamente, mas também para buscar alguma coisa em mim. Tenho a certeza de que deixei na impressão dessas pessoas a ideia de um sujeito alegre e divertido — um tanto irresponsável — que um dia lotou o seu possante Volkswagen 1981, para estacioná-lo num lugar paradisíaco e distante, para assim viver a jovialidade excitante e as descobertas da vida. O tempo passou e nos modificou, naturalmente, mas em nossas essências, quero acreditar que vamos continuar nos reconhecendo, exatamente com antes.

Comentários: 7
Thiago Fonseca Publicado em junho 7, 2009 às 2:44 pm   Responder

O bom de todas as lembranças é quando olhamos para trás e vemos que tudo o que fizemos foi bom ao seu tempo e que se não tivesse acontecido, jamais seriamos quem somos hoje. Ótimo texto, como sempre. Beijos.

Lis Blanco Publicado em junho 7, 2009 às 5:27 pm   Responder

É bom demais lembrarmos este passado tão gostoso de ter sido vivido…é tão bom sabermos que nossas histórias puderam ser construídas de uma maneira tão maravilhosa…mas é bom demais saber que você pode ser e viver tão intensamente quanto antes.

Junior Publicado em junho 8, 2009 às 8:18 am   Responder

Somos construções do nosso passado e da nossa história. Nossa formação se dá mediante as percepções que adquirimos enquanto crescemos. Algumas delas deixam marcas pequenas, e outras deixam rastros visíveis. Mas se somos o que éramos, então seremos o que somos. O nosso passado ao contrário da esperança do futuro, traz a certeza do que já vivemos… e é tão bom quando vivemos intensamente e demos o nosso melhor. A lembrança pode nos trazer alegria e renovar as nossas energias. Penso que o nosso passado é como uma bolinha de sabão que cumpriu o seu papel e estou no ar, e o melhor é que nosso presente e o nosso futuro, também são Bolha de Sabão, que neste momento estão nos dando alegria de brincar com a vida. Lindo texto mais uma vez.

Jaque Adrian Publicado em junho 8, 2009 às 3:09 pm   Responder

Amado, infelizmente dessa vez vcs tinham me deixado de fora, mas tenho tantas outras boas lembranças do nosso tempo.Tempo esse que revivemos cada vez que nós lembramos dele. Eramos completamente alucinados mas pela vida, não por drogas,ambriagantes com nossa juventude, insanos em nossas certezas e apavorantemente vivos. Quando preciso recarregar me lembro daqueles dias e pareçe que por encanto me sinto muito mais forte. Sentia falta dos meus amigos queridos, mas eles estão de volta, e acredite mais presentes do que nunca. E quanta saudades do Voyage hein!!! Saibas que o simples fato de ser citada em um de seus textos me envaidece de tal forma que não tenho palavras. Sabes o quanto sou descaradamente sua fã. Pelo que fostes no passado, pelo que és no presente e pelo que ainda serás no futuro. Mil bjos pra ti amado.

Vivi Publicado em junho 8, 2009 às 5:01 pm   Responder

Eu era uma criança na época, mas lembro mto bem. O Pai sempre preocupado. Vc contando as folias pra mãe… Que maravilha! “Que tempo bom, que não volta nunca mais…” Feliz daquele que tem histórias e boas lembranças. Beijos.

Sidi Publicado em junho 12, 2009 às 1:34 pm   Responder

Para nos conhecer é preciso “revirar” a nossa própria história. É preciso ir em busca do que ficou no passado. Principalmente, das boas lembranças. Ao contrário do que muitos dizem: “o passado não importa mais”, penso que o passado é o “TUDO”, a “essência” que determina nosso amanhã. A ordem cronológica dos fatos pode até ficar no esquecimento de nossa memória, mas as experiências nos acompanharão e serão a “escola da vida”. É olhando para dentro de si, para as “profundezas” dos nossos pensamentos, de nossa história de vida, que encontramos algo muito precioso, o auto-conhecimento.

Rose Valadas Publicado em junho 17, 2009 às 7:20 pm   Responder

Ola Amadinho Saudades. Entrei no seu blog e me emocionei, lembrei dos nossos tempos, bons tempos que não volta mais. Adorei seu blog, vc é um filósofo, fico tão orgulhosa de vc, pois fiz parte disso. Bjus no coracão.

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