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Alter Ego
On dezembro 20, 2009 | 15 Comentários

Li algo muito interessante que especula que todos os super-heróis foram um dia homens de verdade e que, por algum motivo ou incidente da natureza, tornaram-se criaturas com superpoderes. Por exemplo, a verdadeira identidade do Homem Aranha é Peter Parker, assim como Bruce Wayne torna-se bravamente o Batman. Entretanto, com Superman é diferente, ele cria uma personagem chamada Clark Joseph Kent, o seu alter ego, para interagir socialmente enquanto não exerce a função de super-herói. Clark Kent é o sujeito tímido, inseguro e quase covarde, que divide as tarefas no Planeta Diário com a também repórter, a doce e frágil mocinha Lois Lane, conhecida pela forte personalidade. Clark é, então, o extremo oposto do Superman — a própria crítica à humanidade —. Assim, na visão de Kal-El, nome do Superman no planeta Krypton, nós, seres humanos, somos fracos, vulneráveis, tímidos e covardes. E, de fato, essa não só é a visão do nosso herói, como também a dos seus criadores e de quase todos os teóricos que pensaram a respeito do assunto.

A teoria do “Mito do Superman”, do filósofo Humberto Eco, vai dizer que o herói é um mito moderno, assim como os deuses do Olimpo existiram para os gregos da antiguidade. Em resumo, Eco afirma que Superman tem como principal motivação a manutenção do bem e da ordem da sociedade em que vive. “O herói não acaba com a fome na África, não elimina o terrorismo internacional, não acaba com as ditaduras criminosas”, diz Eco. Apesar da sua onipresença e onipotência, a única fraqueza do Superman é a Kriptonita. Alguma vulnerabilidade todo herói, então, tem.

Por aqui, a série “A Grande Família” explorou o assunto por anos com Dona Etelvina, que era o próprio Beiçola. Para justificar a transformação, a justificativa e o argumento eram de que o pasteleiro teve um surto psicótico ao se vestir com as roupas da mãe, já falecida, passando um tempo em uma clínica psiquiátrica para a recuperação. Beiçola também era virgem, e nutria uma louca paixão por Dona Nenê. Dona Etelvina, portanto, pode ser o alter ego de Beiçola, aparecendo justamente para dizer tudo aquilo que ele não tinha coragem de dizer ou fazer. Beiçola era um sujeito tímido e apático, um sujeito esquisito e fraco. Etelvina, por sua vez, era a matriarca forte, que contestava, que ditava regras e normas. Não havia uma luta entre o bem e o mal, no entanto, a mãe continuava viva nele, para dar à medida das coisas percebidas por ele. Contudo, a medida daquilo que podia, e daquilo que não podia, era uma visão dele próprio e não da mãe. A grande sacada dos autores foi aceitar a cumplicidade que as outras personagens teriam sobre Dona Etelvina, ou sobre Beiçola. Todos sabiam que o travestido era o pasteleiro. Mesmo assim, aceitavam essa outra identidade, embora bizarra, como “real”.

Para entender alter ego, em linhas gerais, pode-se pensar como sendo o outro “eu”, a outra “personalidade” do mesmo indivíduo. No caso do Superman, é Kent quem mantém o segredo da sua própria identidade. Então, o repórter é o super ego do nosso herói, diferentemente de quase todos os outros heróis que conhecemos, quando o contrário acontece.

A psicologia diz que o alter ego é o lado oculto, o lado secreto da nossa identidade — o “eu” inconsciente. Já o ego, é a parte superficial, rasa, composta pelas ideias, por pensamentos, pelos sentimentos do sujeito. É aquilo que percebemos no outro através dos nossos sentidos. Tem anos que esse assunto chama à atenção não só dos teóricos, como também a dos espectadores mais atentos que, da mesma forma, no mundo real, buscam entender o próprio alter ego e o alter ego dos sujeitos à volta. São vários os campos da ciência que tentam encontrar as respostas. Muito se descobriu na física, na biologia, na teologia, na filosofia e na psicologia.

Margô, como médica, tem outros pontos de vista a respeito do o assunto. É ela, portanto, a minha principal conselheira e ouvinte — além das rosas, secretamente —, esclarecendo as minhas principais divagações filosóficas, que tentam entender o motivo pela qual o que é claro escurece com o tempo, e o que é escuro clareia se exposto ao sol, a clássica premissa da filosofia.

Diz Dr. Margô que nem mesmo os longos anos de terapia fizeram-na compreender o seu “eu” consciente e inconsciente, na busca de viver confortavelmente dentro de um mundo de conflitos criados por ela mesma. Para ela, somos aquilo que o outro percebe em nós e isso nos divide em várias partes, cabendo a nós mesmos juntarmos e construirmos o todo. Cabe a nós essa reconstrução constante, da maneira como queremos ser vistos e percebidos. Chego a acreditar, contudo, que depositamos a máxima confiança em nosso alter ego e no alter ego do outro, considerando que ele está num lugar mais profundo do ser humano, no nosso inconsciente, em nossa mais pura verdade. Cada um sabe o céu e o inferno que carrega dentro de si. Não há ninguém melhor do que nós mesmos para detectarmos as próprias fragilidades, as nossas inseguranças, as nossas incertezas e medos. Por outro lado, fomos criados com certa autossuficiência, seres capazes de realizar, providos de talentos e vontades. Por outro, acredito que o dia em que o homem for inteiro — completo em essência —, encontrará a felicidade suprema e plena, se encarregando de colocar todas as coisas, que antes causavam conflito, no seu devido lugar.

Comentários: 15
Junior Publicado em dezembro 20, 2009 às 12:55 am   Responder

Após leitura, fui buscar qual seria o meu Alter Ego, o meu “outro eu”, o meu lado oculto, secreto… inconsciente. Sabe o que descobri? Não descobri nada… na verdade nem eu sei quem sou de verdade… tenho a impressão que sempre serei incompleto, sempre serei um menos… em busca de um mais. Tenho a impressão que busco parte de mim, no outro e que permito que o outro torne-se parte de mim. As vezes tenho a impressão que criei um personagem que representa, ou não, algo real… na verdade poucas vezes na minha vida este personagem pode se despir de todo o preconceito… e ser eu mesmo… acho que por isso gosto tanto de você. Acho que sou um pouco do nada, um pouco do tudo, um pouco de você. Acredito que somente o amor pode quebrar todos os elos negativos… e quem sabe só assim… saberei quem sou de verdade.

Rose Valadas Publicado em dezembro 20, 2009 às 9:54 am   Responder

Joseph, para mim você é Superman!!!! Adorei o que escreveu e isso é bem verdade em cada um de nós existem duas faces, e só vemos isso quando nossos limites estão sendo testados, seja na parte pessoal ou profissional. Sempre de alguma forma nós, os seres humanos não queremos demonstrar nossas fraquezas, por isso passamos para outras pessoas que somos super-heróis, mas na verdade todos nós somos o Clark Kent, mas também sabemos que dentro de nós se esconde um Super Homem ou uma Super Mulher. É isso que faz de nós pessoas especiais. Bjus. Ti amoooooooooooo muito.

Vivi Publicado em dezembro 20, 2009 às 12:12 pm   Responder

É isso aí… vc mmo deve sentir o que é importante, o q está fazendo bem p vc, pro seu tempo… Enfim… Seus textos são mto bons, mas se vc está sentindo que deu… é isso… até pq se amanhã vc decidir publicar novamente, seus textos serão sempre bem vindos para seus ‘amantes’. Faça sempre o que tiver vontade. Bjos.

Adriana Sucena Publicado em dezembro 20, 2009 às 5:01 pm   Responder

Joe, isto está me lembrando nossa professora de teoria da comunicação, e as tardes em que passávamos com ela discutindo a teoria do mito Superman!!! Belo texto amigo… Bjs.

Tathiana Amaral Publicado em dezembro 20, 2009 às 6:22 pm   Responder

Nossa! Esse seu texto vai precisar de um outro meu como resposta. Acho que esse espaço aqui não será suficiente para as minhas dúvidas e para as 500 mil coisas que tenho na minha cabeça. Tô em um momento estranho…. tudo vira de pernas para o ar em questão de segundos. Não sei, devo ter pelo menos umas 5 tathis dentro de mim. Preciso matar algumas.

Marlene Publicado em dezembro 20, 2009 às 8:00 pm   Responder

Oi querido adoro você como Joseph ou como Kent. Também tenho minha outra parte de Mulher Maravilha, além de charmosa poder ser tua parceira no mundo dos super-heróis. Sou uma super mulher que vale por muitas, se é para se ter o ego aprimorado cuido do meu todos os dias, porque senão você não seria meu sobrinho. Te amo.

Luís Henrique Publicado em dezembro 21, 2009 às 12:03 am   Responder

Fiquei muito curioso em relação ao ‘fechamento do ciclo’, anunciado nas duas últimas postagens. Por sinal, adorei estes dois textos. De fato, dos poucos que li, me pareceu que nesses dois tu vais mais fundo, estás mais maduro, por assim dizer… Há pontos que quero comentar oportunamente. Luís.

Anna Gabriela Publicado em dezembro 21, 2009 às 5:04 pm   Responder

É isso mesmo o que entendi? Você vai finalizar um ciclo com esse último, mas não tão menos brilhante texto? Tudo bem, vou entender que destes vazão ao teu lado Clark Kent! Trocadilhos irônicos à parte, meu amigo, saiba que mesmo não estando presente foi um deleite para mim, partilhar e agregar ideias às suas! Que bom que disponhamos de várias nuances, de ego, alter ego e alguns “eus” com os quais a gente mesmo se surpreende. Seu texto caiu como uma luva neste momento da minha vida mais uma vez. É incrível como o bicho homem tendo trajetórias, personalidades, e históricos diferentes é ao mesmo tempo tão parecido um com o outro. Parabéns à mais uma bela e apropriada reflexão! Dê a você essa pausa, mas não pare de invadir nossos íntimos com tuas palavras. Um grande beijo, Gabriela.

Publicado em dezembro 22, 2009 às 12:11 am   Responder

Pausas fazem parte da vida de todo mundo… elas servem pra renovar os ares, pra oxigenar a vida, e pra bem programar os retornos. Querida Tathi… você fez uma pausa de 12 anos virar uma amizade. Fez pausa no blog. Fez pausa na vida. Eu tô de pausa breve nos meus escritos, mas sinto falta. Na verdade tô concentrando energias em outros textos. Posso te pedir uma coisa? Me avise quando precisares da visita do Zé? Ele irá espontaneamente ao teu blog, mas se for urgente ele atende também! Hehehehe. Que as teclas do Chico ajudem-na a encontrar a resposta da tua pergunta. Muitos bjos.

Lis Publicado em dezembro 22, 2009 às 2:00 am   Responder

Não tenho nem o que dizer… quase chorei com este texto! Sabe por quê? Porque vc soube dizer muito bem que todos nós apresentamos “2 lados”… embora muitas vezes não nos demos conta… lembra qdo te disse que estava precisando dar uma surtada? Então… este talvez seja o meu outro lado, minha outra face… e o que mais me deixa feliz, é que com vc sou inteira, me revelo, já me despi das 2 faces… vc me conhece, vc é quase meu analista, meu parceiro… espero nunca me separar de ti… vc me surpreende… pela inteligência, sensibilidade, amizade! É tão bom fazer parte do teu mundo, é bom demais tê-lo em meu mundo! Eu posso te dizer com veemência… que eu gosto de vc por inteiro… mesmo que apresente o ego, alter ego e tudo o mais!!!!!!! PARABÉNS POR SER ASSIM!!! Beijos .

Sidi Publicado em dezembro 22, 2009 às 3:06 pm   Responder

Tenho que admitir que você trouxe um assunto bastante complexo. Precisaríamos organizar um fórum, que tal? heheh! Além de um bom público, tenho certeza que teríamos muitas pessoas se perguntando: “quem sou eu, quem eu quero ser, quem eu penso ser?”. Pessoalmente, defendo o auto-conhecimento como uma busca inesgotável ou melhor uma constante descoberta de si mesmo. Sabemos o que fomos no PASSADO, não sabemos o que seremos no FUTURO, resumidamente. Freud explica algumas coisas, a Filosofia pergunta mais que responde e a Teologia chama atenção para o campo espiritual. Não temos na verdade um conceito uniforme. Precisaríamos, antes de tudo, admitir nossa fragilidade e nossa potencialidade diante do “alter-ego”. É bem verdade que devemos nos aceitar, quem somos de fato, porém até que ponto o “sistema” permite, será outro capítulo… Enfim, até mesmo o mais “estranho” personagem que podemos “ser”, na vida real ou em nossos sonhos, ele também pode e deve servir para mudar uma vida ( a nossa e a do outro ) !

Cintia Schneider Publicado em dezembro 22, 2009 às 3:10 pm   Responder

Concordo com você, anos e anos, para descobrirmos quem somos? E do que somos capazes? Até onde vamos nessa loucura?!!Querido, você poderá ser o Super Homem ou o Gato Felix, que no fundo terá essa mesma essência… só mudar a ordem da vida, ou do final dela… mas seja quem for o personagem dentro de vc, estarei ao seu lado… para te apoiar, beiju, sempre… Cintia.

Vivi Publicado em dezembro 23, 2009 às 2:06 pm   Responder

Adorei o exemplo Beiçola, até porque sou fã da Grande Família. Mas é exatamente como vc coloca, todos nós temos no mínimo duas personalidades… Até pq hj em dia temos que nos desdobrar entre ser amiga, dona de casa, filha, mãe, profissional, conselheira, atleta… Ter mais de uma personalidade não é nada perto desses compromissos… Sempre fui avaliada como uma pessoa frágil, meiga… Mal sabem eles quem dita as regras em casa. Hehe… Parabéns pelo seu trabalho até aqui. Sentiremos falta destes textos que nos fazem enxergar que somos normais. Amo-te!

Thiago Fonseca Publicado em dezembro 24, 2009 às 10:09 am   Responder

Querido Zé, Demorei mas vim ler seu texto, que encerra mais um ciclo do blog. Nunca me imaginei com duas personalidades, mas analisando com cuidado, sabe que você tem razão? Sempre nos mostramos de uma forma para outros, ocultando aquilo que só diz respeito a nós. Somos de uma forma em nosso dia-a-dia e de repente tiramos uma força de outro planeta para superar um desafio. Mostramo-nos bem, quando na verdade estamos mal e até mesmo ao contrário. O ser humano é mesmo um constante diálogo entre duas metades. Mas quer saber o que é dificil? É encontrar o meio termo. Pegar o melhor do ego e o melhor do alterego e transformar isso em felicidade para nós e para todos que nos cercam. Tai o desafio! Sorte daqueles que conseguem fazer isso (ou acham que conseguem). Para nós, eternos pensadores, ficam os conflitos, textos, pensamentos. Bem-vindo ao novo ciclo, Zé. Que ele seja rico em experiências e vivências e que você volte logo para contar tudo para a gente. Beijão!

Wander Publicado em dezembro 11, 2011 às 2:15 pm   Responder

Quem somos? Quantos somos? Qual o sentido de sermos como que colocados na estrada da existência e termos que ir caminhando meio às cegas? Quantas idéias há a respeito! Todas tentativas de o ser humano encontrar-se a si mesmo. Se há como que uma quase compulsão para essa busca, deve ser um mecanismos desconhecido que está sepultado, como que hibernando, nas profundidades da alma, mas que nos incita constantemente a fazer as perguntas: quem? para onde? para que? e “depois”? Nesse terreno cruzam-se ideias de todas as cores: filosofia, ciência, espiritualidade, arte ….. Temos a tendência em vê-las separadas. Mas, na paleta no Pintor Desconhecido, todas são apenas cores, modos de uma mesma e única coisa/realidade. Uma das “Escolas” em que mais vi um certo sentido, uma certa síntese de todas essas idéias foi no Lectorium Rosicrucianum – Escola Internacional da RosaCruz Áurea. Não é proselitismo superficial. Isso não faria sentido algum. Mas talvez possa encontrar algo (que, na realidade, já traz consigo). Abraço, Wander.

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