fbpx
Antes de Cristo
On junho 3, 2010 | 7 Comentários

A minha cabeça doía, como se tivesse levado uma forte pancada. A visão me parecia turva, como se o olho buscasse definir o foco para visualizar o que estava à frente. Ao meu lado, um senhor, com um olhar delicado, cujos cabelos de tão brancos mais pareciam feitos de algodão, ofereceu-me a mão para que eu pudesse levantar. Aos poucos, ao recobrar a consciência, vi-me num lugar completamente estranho e desconhecido.

— O que aconteceu? — perguntei ao velho senhor.

— Acredito que você tenha tropeçado e batido a cabeça nas pedras. Esta parte do trajeto é bastante rochosa e o caminho pode ficar ainda mais difícil.

— Sinto-me um pouco estranho.

— É preciso treinar e disciplinar o corpo e a mente para não tropeçar. Mas mantenha a calma que logo você ficará bem. Beba um pouco da minha água, assim você se sentirá melhor para seguir a longa caminhada.

O velho ofereceu-me um pouco da água do cantil.

— O senhor parece um anjo enviado por Deus para me salvar. Não fosse isso, eu ainda estaria debruçado no chão, feito indigente, correndo o sério risco de morrer. Só não consigo entender o que aconteceu. O que estou fazendo aqui?

— Você e todos os outros peregrinos que seguem por este caminho, vão para o recenseamento. Pelo menos, é essa a ordem de César Augusto. Sua descendência também é da família de David?

— Não compreendo o que o senhor diz. Parece que recobrei a consciência, mas não a memória. Não consigo ligar os fatos.

— Fique tranquilo e não se esforce mais do que o necessário. Não há pressa para nada.

— Se este é meu destino, não hei de hesitar. Sinto-me tão leve e livre, um pouco amolecido e anestesiado, talvez, que meus pés parecem não tocar o chão. Pode ser estranho, mas este lugar me traz uma paz tão grande, como há muito não experimentava.

O velho apenas sorriu.

— Onde estou? — perguntei.

— Logo você entenderá, meu filho. Logo você estará em Belém. Você certamente é um dos escolhidos para presenciar o nascimento do Salvador do Mundo.

E quanto mais o velho falava, muito menos eu compreendia. Julguei, no entanto, que aquilo tudo não passava de um blefe onírico, uma ilusão, mas nada perderia se desse corda para tamanho absurdo e alucinação.  Sentindo-me bem com tudo aquilo, imaginei que alguns dedos de prosa não me fariam nada mal. Ganharia, assim, algum tempo para me recuperar, resolvendo, de repente, fazer várias perguntas para o sujeito que mais parecia um personagem saído de um conto infantil, de uma história narrada por Antoine de Saint-Exupéry.

— O senhor disse que alguns serão escolhidos para ver o Salvador do Mundo?

— O Messias, o Príncipe da Paz! — ele respondeu.

Como que seduzido por algo extraordinário, e percebendo a seriedade em cada palavra pronunciada, preferi silenciar o restante das perguntas que pretendia fazer, e atento ouvi o velho senhor.

— É o Filho de Deus que nascerá de uma virgem. É Ele, o Salvador deste Mundo, que sofrerá e morrerá por vós para salvar a Humanidade. No seu semblante, ver-se-á a misericórdia, a piedade e a compaixão.

Calmamente, o velho seguiu a narrativa, dando a impressão de que a Era Moderna do Mundo Ocidental tivesse voltado no tempo, retrocedido, como se os dias do calendário litúrgico agora fossem contados a partir dali; como se a paisagem à volta tivesse se eternizado na beleza das poucas árvores, nos vários pedregulhos do chão, no leve sopro do vento, na luz crepuscular.

— O mundo se tornará uma única nação — profetizou o velho senhor —, os povos falarão uma única língua e um único governante reinará. Não haverá guerra, não haverá choro, não haverá fome. Ele vos ensinará o amor ao próximo. A ganância será banida da Terra, e o pão e o vinho haverão de abundar sobre as mesas daqueles que crerem. A natureza será generosa para quem com ela for generoso. As águas serão límpidas e de fonte infinita. No solo fértil, nascerá o alimento puro e livre das pragas e das toxinas. E o homem partilhará com outros homens, sem que com isso lhe falte, e viverá com dignidade.

Uma longa pausa se fez.

— Você deve acreditar em mim — ele insistiu.

— Esse pensamento vai ao encontro das teorias da maioria das religiões — observei.

— Será esse o ensinamento Dele — disse o velho, apontando para o céu.

— Acredito, no entanto, que ainda falte um líder de verdade para guiar a Humanidade — acrescentei, argumentando que a busca por líderes era quase intrínseca no homem.

— Creia também que você foi escolhido para presenciar o nascimento de um lindo menino em Belém, filho de José e Maria de Nazaré. E somente os homens de alma pura e bom coração seguirão por este caminho.

Não achando ruim a ideia da peregrinação que se apresentava à frente, lembrei-me da história de São Francisco de Assis, que abdicou a riqueza do pai para pregar o evangelho de forma itinerante, numa profunda identificação com os mais pobres dos pobres, dedicando-se e amando a todos sem distinção.

— É hora de partir, meu filho.

— É hora de partir — repeti, sem muita vontade.

— Não tenha medo, siga confiante.

O velho calou-se por alguns instantes e sorriu, percebendo o meu estado de declinação e dúvida.

— Haverá sábios para lhe guiar. Você os reconhecerá porque carregam consigo o ouro, o incenso e a mirra. São presentes para o Pequeno Menino. É o Filho de Deus que nascerá.

— O Filho de Deus?

Apesar do pensamento de esperança, fui assaltado pela ideia de que o Mundo precisa urgentemente se render, mudando severamente seus conceitos e paradigmas. Vivemos uma época muito difícil quando a ganância e os interesses próprios norteiam cidadãos e governos desonestos, em detrimento de uma maioria desprivilegiada. Aquilo me fez lembrar da guerra, do extermínio, do racismo, da inquisição, da violência urbana, da bomba nuclear, dos homens-bombas, da maldade, das catástrofes, da ira, do ódio e da inveja. E, respirando profundamente, na tentativa de me reencontrar, indaguei ao velho:

— Que dia é hoje?

— 24 de dezembro — ele respondeu.

— Posso lhe fazer uma última pergunta?

— Pode — concordou o velho senhor, com a cara de um anjo e um semblante acolhedor que só existia nos homens de bem.

— Qual é seu nome?

— Gabriel — ele respondeu, sorrindo.

Comentários: 7
Viviane Publicado em junho 4, 2010 às 11:36 am   Responder

Que texto interessante.
Será que meu inconformismo também se trata de evolução?
Quem sabe um dia, nós, pessoas de bom coração, também possamos subir estes degraus.
E viver em um mundo melhor.
Será que vou identificar meu guardião, será que vamos nos reconhecer?

Lis Publicado em junho 4, 2010 às 3:10 pm   Responder

Queria poder reconhecer cada decisão que eu tomo… em qual futuro me levará??? Não sabemos né… nem saberemos… as escolhas são sempre nossas. Por isso… o livre-arbítrio.
De ter bom coração tô bem tranquila… mas se meus pés e minha força estarão prontos a subir esta escada da evolução… isto eu já não sei. Deixarei por conta do meu guardião!!!
Mas uma coisa é certa pra mim… tô sempre em busca de respostas… como se eu quisesse viver primeiro o futuro e voltar pra cá… pro presente. E com relação à isso fica somente sendo 1 dos meus desejos… os outros que eu tenho vc já sabe de montão!!!!
Te love forever… que belas palavras… como sempre!!!!
“Inté”

Ary Publicado em junho 6, 2010 às 8:01 pm   Responder

Li e gostei. Abraços. Ary.

Ax Publicado em junho 7, 2010 às 10:44 am   Responder

Zé,
Muitas vezes o nosso mundo imaginário é muito mais verdadeiro do que o mundo real. Ele pode estar cheio de vida, de amores, de figuras que nós mesmos criamos e nossos sentimentos para com eles podem ser intensos. Talvez seja por isso que não conseguimos abandonar esse mundo imaginário, perfeito. No mundo real tudo pode ser contraditório e imperfeito. O mundo daqui também pode ser tão ilusório quando o de lá. Digamos que a vida seja composta por alguém que procuramos e que nunca encontramos… pura imaginação.

Tathiane Amaral Publicado em junho 8, 2010 às 2:23 pm   Responder

Nossa! Que texto lindo!!!!!!
Delícia voltar a te ler!
Preciso ler novamente para tecer algum tipo de comentário à respeito. Por enquanto fica os meus mais sincero parabéns (!)
Beijos de saudade!

Tathiane Amaral Publicado em junho 8, 2010 às 2:24 pm   Responder

corrigindo: sinceros*

Teresa Publicado em junho 9, 2010 às 12:33 am   Responder

A grande sabedoria do homem consiste no entendimento e na aceitação de quem ele realmente é. Para ser um bom discípulo é necessário que o homem esteja disposto à arte de aprender. E no momento em que ele souber distinguir entre o real do imaginário, ele estará pronto para ocupar a posição de Mestre.

Comentar

  • Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

    Mais publicações