fbpx
Moonstruck
On agosto 4, 2010 | 18 Comentários

Ontem teve início a fase minguante da lua, de um mês extremamente gelado em todo o país. No Sul, as temperaturas despencaram abaixo de zero, amplamente alardeado pelos noticiários, e aqui na varanda a sensação é de muito frio. É uma época de ventos fortes, vindos das calotas polares do extremo sul. Dizem que nessa época do ano as noites são mais silenciosas e solitárias. Aqui, o pôr do sol acontece exatamente às 17 horas e 33 minutos e, a cada novo dia, ele atrasa um minuto a mais para descer no poente, e adianta um minuto para nascer, prenunciando assim a chegada da primavera, que precede os dias quentes do verão. No inverno, os dias são mais curtos e as noites mais longas, geralmente eleitas para o bom sono, admiráveis para descansar e dormir. Admiro as noites de lua cheia, também, especialmente as de Lua Azul, quando é possível ver suas crateras a olho nu. Aqui no bairro, as noites claras convidam os sujeitos enamorados a um passeio na praça central. Margô dificilmente aceita aos meus convites, mas não desisto. O cinema, por sua vez, dramatiza que as donzelas devem ficar atentas nessa noite, porque o lobisomem pode aparecer e levar consigo suas virgindades. Dizem também que nessas noites não dá peixe, visto que eles enxergam a silhueta e a sombra dos pescadores projetadas na água e, assim, se vão. E quanto mais frio, mais bela e esplendorosa é a quantidade de estrelas que se revela no céu.

Numa certa altura da montanha, numa espécie de píer, é possível que o visitante observe a lua refletida nas águas do mar. A imagem, apesar de bela, é bastante ofuscada pelas fortes luzes que iluminam as noites da cidade. Não fosse a claridade exagerada da iluminação das ruas e praças, e o alto preço de um telescópio, eu já teria comprado o equipamento para apreciar a imensidão do espaço sideral. Deve ser interessante aproximar um ponto na lente, por mais de seiscentas vezes, para observar a lua e as estrelas, e imaginar o que acontece no infinito das outras galáxias, nessa vastidão deslumbrante de Deus.

Margô e eu tínhamos o hábito de visitar o píer construído numa fenda aberta na mata, mais ou menos no meio da montanha. Ficávamos lá, por horas, para contemplar a lua e as estrelas e, no horizonte infinito, à frente, os majestosos e esplendorosos crepúsculos, quando os últimos raios de sol, que partem por detrás da montanha de Grumari, emanavam um céu de tom róseo e dourado, envolto por uma beleza indescritível, um tanto difícil de descrever. Era preciso ver para sentir e apreciar.

— Vou guardar essa imagem para sempre em minhas melhores lembranças — ouvi de Margô.

— A vida poderia ser eternizada aqui — eu disse.

Lembro-me que quando jovem, escrevi uma carta para uma tia e nela confessei que à tardinha eu subia no telhado para admirar o entardecer. O telhado era o ponto mais alto que eu podia chegar. Depois dele, não havia nenhuma barreira para que se visse a imensidão do céu. Na carta, narrei que por volta das cinco e meia da tarde, as nuvens ficavam cor-de-rosa e que, naquele momento, eu falava com Deus. Tempos depois, essa mesma tia me procurou para comentar a carta e para dizer que, da mesma forma, subia no telhado para apreciar o entardecer, mas que, certo dia, desajeitada, quebrou o pé direito ao descer apressadamente e cair.

Daqui, também temos vista para a rota dos aviões que partem do aeroporto do Galeão e do Santos Dumont. A cada intervalo de quatro minutos, vemos as aeronaves passarem. Durante o dia, elas quase não chamam atenção, mas à noite, quando observo, fui informado de que se duas luzinhas localizadas nas extremidades de cada asa, uma azul e outra vermelha, não piscarem, poderia se tratar de um objeto voador não identificado, o que despertaria apreensão e curiosidade. Noutra noite, fui chamado às pressas por Flor para ver um ponto luminoso no horizonte, que mudava de cor constantemente, cintilando entre tons azuis e verdes. Como conhecíamos a rota dos aviões e sabíamos que nenhuma aeronave, helicóptero ou planador voava daquela maneira, logo concluímos que se tratava de um objeto não identificado.

— Você não acha estranho e fora de rota o deslocamento daquele objeto, papai?

— Não me parece um padrão, minha filha.

Não sei se Flor e eu vimos um disco voador, mas era um objeto bastante estranho. Talvez nosso olhar estivesse iludido por balões, pela inclinação solar, ou por outra coisa qualquer. Por outro lado, senti-me feliz por imaginar que não estamos sozinhos nessa viagem infinita. Flor imaginou pequenos serezinhos visitando a nossa região e disse ter medo de ser abduzida, depois concordou que a ideia de sermos os únicos habitantes dessa galáxia, era pretensioso e egoísta demais.

Hoje o céu está bastante nublado, com nuvens carregadas e cinzentas e, logo mais, a noite chegará gelada outra vez. O crepúsculo ficará para o próximo dia de sol. Nos dias de inverno, uma nevoa densa cai sobre a pequena comunidade, por conta da grande quantidade de lagoas e matas úmidas nos arredores. A probabilidade de chuva está em noventa por cento, acumulada em dezessete milímetros, e o vento não passará dos onze quilômetros por hora. No próximo dia 24, a lua estará com seu brilho máximo e na fase cheia. Vou convidar Flor e Margô para me acompanharem numa visita ao píer, na fenda de mata aberta no meio da montanha. Tem tempos que não voltamos lá.

Comentários: 18
Ax Publicado em agosto 4, 2010 às 10:31 pm   Responder

Na sua varanda de estrelas o que se via era indescritível, lindo. Olhar pra cima era desejável, era necessário e involuntário. Eram pontos luminosos que mesmo pequenos tinham em si tamanha grandeza. As Três Marias juntas e alinhadas, planetas ousados que cintilavam justamente para serem vistos, e um sorriso mais lindo.
Corre pra varanda e vem cá ver. Olhos atentos, fixos, dispostos a ver. Um disco voador… não importa, os que desejam enxergam ainda assim.
De repente um silêncio, um olhar… era olhar de saudade, um olhar de “mais” que fazia esquecer por hora esse pedaço de chão que então ficou parecendo de “menos”… momento gravado para sempre. Era a varanda das descobertas, visões e sonoridades.
Vivo de sonhos e sou levado pelos momentos de alegria, o sorriso é meu combustível. Na sua varanda um lindo dia vai nascer, e quero fazer parte dele.

Publicado em agosto 5, 2010 às 11:45 pm   Responder

Você já sabe que é muito bem-vindo aqui, guri. Acho que vou comprar o telescópio pra apreciarmos as estrelas, porque a nossa alma já veio equipada com ele. Acho que por isso nos reconhecemos.
Zé.

Dely Rodrigues Publicado em agosto 5, 2010 às 12:57 am   Responder

Amei! Que coisa menino!

Publicado em agosto 5, 2010 às 11:30 pm   Responder

Coisa: aquilo que existe ou pode existir; objeto inanimado; acontecimento, ocorrência, fato ou realidade. Definição muito bem colocada por ti, para lua e discos voadores. Você acredita?
Zé.

Jacqueline Gimenez Publicado em agosto 5, 2010 às 8:04 am   Responder

O frio campineiro pede uma taça de vinho, se for branco muito melhor… este frio que entra até mesmo pelas frestas da janela falam, como a alma da gente, que a vida é assim, como as noites de frio… feita para aproveitar até mesmo as desvantagens.
Eu sinto saudades que sacio aqui no Blog.
Acumulo abraços para quando nos encontrarmos.

Publicado em agosto 5, 2010 às 9:27 pm   Responder

Ah, o frio! Um convite ao bom vinho, à lareira ou fogueira, ao bom papo, às pessoas interessantes. Você é uma delas. Acho que só trocamos um olhar, mas foi o suficiente pra que eu soubesse quem você era, e também para que ficassemos eternizados um no outro. Nos reencontraremos sempre.
Zé.

Su Publicado em agosto 5, 2010 às 10:45 am   Responder

Texto interessante, e também meio enigmático, até vou alugar o filme.
Minha mãe também leu o texto e ela gostou muito de saber que vc observou um ovni, ela te pede uma foto.
Bjs! Su e Vera.

Publicado em agosto 5, 2010 às 11:48 pm   Responder

Moonstruck é um dos mais belos filmes que já assisti, mas tem estar sensível a ele. Dá vontade de reunir com a família para jantar, comer macarronada e tomar vinho. A lua do Moonstruck é dos amantes, dos que amam a vida.
Zé.

Fellipe Lima Publicado em agosto 5, 2010 às 10:59 am   Responder

Que beleza rapaz!!! Assim todos vão querer conhecer sua varanda!!! (será q foi essa a intenção??? rsrsrs)
Adorei o texto, só não sei se acreditei na história do OVNI…. rsrsrs. Preciso ver essa filmagem ae!!!
Abração!!!

Publicado em agosto 5, 2010 às 10:10 pm   Responder

A minha varandinha estarará sempre à tua espera. Venha sim, pro bom papo, pra Itaipava gelada, para comemorarmos a vida. E, quem sabe, se dermos sorte, seremos surpreendido por um disco voador.
Zé.

Viviane Publicado em agosto 5, 2010 às 11:50 am   Responder

Seu texto me fez lembrar o dia em que estávamos juntos, nos fundos de casa, tomando ceva e comendo sanduíche aberto. De repente umas luzes estranhas sobre nós, chamaram nossa atenção. Será mmo um disco voador? Pena mmo não termos registrado, a não ser em nossos corações. Depois por horas ficamos falando sobre o assunto… Vc recorda?

Publicado em agosto 5, 2010 às 8:00 pm   Responder

Só os atentos à vida, às pessoas, às almas, ao céu, enxergam um pouco além daquilo que julgamos “normal”. Os desatentos só enxergam o corpo, as capas; mal sentem as estações do ano; não sabem das fases da lua e jamais enxergarão além das estrelas. Azar o deles e sorte a nossa.
Zé.

Lis Publicado em agosto 8, 2010 às 5:25 pm   Responder

Faz tempo que não passo por aqui e pela sua varandinha. Que tão bem me faz, faça chuva, faça Sol estar em sua companhia. Com chimarrão ou com vinho… os papos vão se indo e qdo nos demos conta as horas já se foram. No observar dos novos seres, temos a certeza de que nunca seremos únicos e nem queremos; por que não descobrirmos cada dia mais o que o nosso infinito ou finito (não sei dizer) Universo ainda tem a nos dizer?
Maravilhoso passar meus olhos pelas tuas palavras…sempre!
Te love forever… ninguém poderá me deter disso.

Publicado em agosto 8, 2010 às 11:23 pm   Responder

Você tem lugar cativo, na minha varandinha e no meu coração. Venha sempre para o bom vinho, o bom papo; venha para nos certificarmos da importancia daquilo que sentimos um pelo outro; venha para pensarmos a vida, como sempre fizemos.
Zé.

Teresa Publicado em agosto 9, 2010 às 8:31 am   Responder

Senti saudades de Moonstruk, dos anos 80, do romantismo da lua, da geração dos discos voadores. Hoje estamos mais virtualizados, mais efêmeros, e nossas vidas estão ainda mais breves. Entretanto, aquilo que está na lembrança, que nos faz bem, pode ser revivido e reinventado a todo instante. A varandinha também é transitória, nada é eterno, e um dia você lembrará dela com tamanha saudade e com muito carinho.

Publicado em agosto 10, 2010 às 7:58 pm   Responder

Lembro-me de um pensamento atribuído a Francisco de Assis que dizia que à noite, ao deitarmos, devemos rever nossas ações e atitudes realizadas ao longo do dia. Só analisando-as muito bem, excluindo erros e destacando os acertos, é que seremos melhores. Tenho feito.
Zé.

Tathiane Amaral Publicado em agosto 9, 2010 às 3:11 pm   Responder

Hei babe! Como sempre, delícia de texto! Adoro esse seu dom de me fazer viajar nas suas histórias. Lembrei de uns 15 anos atrás quando eu ía pro terraço da casa de praia de uma amiga em Itaipuaçú para olhar as estrelas. Era um frio danado! Quase congelava! Mas olhar aquele céu coberto de tantas estrelas valia qualquer sacrifício.
Andei sumida. Falta de tempo para os teclados. Essas coisas de sempre.
Perdeste minha peça, né? Tudo bem… te perdoo e te aviso da próxima temporada, que se Deus quiser será em breve!
Beijos de saudade!

Publicado em agosto 9, 2010 às 8:57 pm   Responder

As palavras são cheias de poesias e dizeres. E você, como artista, é sabedora disso. Que bom que você gosta do que escrevo. Me avise, sim, da sua próxima temporada.
Zé.

Comentar

  • Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

    Mais publicações