fbpx
As Três Marias
On agosto 12, 2011 | 3 Comentários

Com a fala inquieta, uma delas resolveu convidar as demais irmãs para um passeio. Mas não seria um passeio qualquer, nem nada parecido com aquilo que já haviam experimentado. De tão felizes, alguém sugeriu que fossem para um lugar distante, diferente. Pensaram num local com muito sol, rodeado de montanhas verdes e banhado pelas águas geladas do mar do inverno atlântico. Sobretudo, o que elas mais queriam era conhecer outra cidade, ver outras pessoas, experimentar novos sabores, sentir novos cheiros, e sonhar sonhos que não lhes pertenciam. Queriam deixar os filhos, os maridos, a casa e o fogão para trás. Com isso, decidiram pegar o primeiro voo do dia seguinte, com um destino bem longe de onde se encontravam, concordando de imediato que o roteiro deveria ser confiado para alguém experiente, porém, confiável. Lembraram, então, que melhor seria se logo ligassem para o Zé.

Naquela época, eu já vivia com a Margô em Vargem, num lugar montanhoso, tomado por matas nativas verdejantes e úmidas, numa vida que convidava à tranquilidade, ao descanso e ao ócio. Flor ainda não havia nascido. De casa para o trabalho, à época no Jardim Botânico da cidade do Rio de Janeiro, eu era o tipo de sujeito bonachão, que desviava das trilhas das formigas que se formavam pelas calçadas, julgando uma perversidade esmagá-las debaixo das solas dos sapatos, concedendo-lhes assim um triste fim. Sujeito calmo, um pouco falante, que pouco se aventura pelas ruas da cidade, talvez não fosse o anfitrião ideal, mas, para minha surpresa, atendi ao telefonema das três Marias, que intimava a minha presença no aeroporto internacional e pedia translado, hospedagem e os serviços de guia.

— Filho, amanhã pela manhã estaremos chegando.

— Aguardo ansioso, mamãe.

— Suas tias estão animadas — ela avisou.

— A senhora sabe que serão muito bem-vindas.

Atordoado, travei uma corrida contra o tempo, com a concordância de Margô que, por sua vez, alteraria a agenda de trabalho para também receber as três irmãs. E, numa noite não dormida, deixamos a casa arrumada, trocando toalhas, lençóis, travesseiros e enfeitando os ambientes com flores.

Na sala do desembarque havia a euforia da chegada, da longa espera, do tempo que não passava. De um lado estava eu, impaciente, esperando as três donzelas. E, de outro, as três Marias que requisitavam suas bagagens perdidas entre outras tantas, que sem nenhuma delicadeza eram jogadas abruptamente sobre a esteira. Preocupou-me, inicialmente, se todas as bagagens caberiam na pequena mala do Fusca 78. Telefonei a um amigo, que ficou de sobreaviso, por garantia, caso fosse necessário um segundo carro. Não quis que uma delas fizesse o percurso sozinha, na carona de um taxi. Afinal, fui eleito o anfitrião, o “grande guia”. Se para elas aquilo era importante, para mim mais ainda.

Formulei alguns passeios em pensamento, tentando roteirizar uma programação que conviesse às três senhorinhas, com aproximadamente sessenta anos de idade, cada uma. Imaginei que os cafés simpáticos fossem agradar; que o centro histórico e antigo da cidade, com o Municipal, com os palácios e os museus, com a Biblioteca Nacional, com o Paço Imperial, com suas galerias de Arte fossem um bom programa. Imaginei também que a feirinha de artesanato e o passeio no calçadão de Copacabana fosse uma boa aventura. Havia ainda o Cristo, havia o Pão de Açúcar. Assistir as peças teatrais que se espalhavam pelos inúmeros teatros, seria um excelente programa. Bolei, também, algumas tarde de Sudoko ou canastra, imaginando que não seria uma ideia ruim e, numa cena dantesca, pude ver as três velhinhas lutando com agulhas de crochê e tricô, por não suportarem tanto tempo confinadas num lugar tão pacato e tranquilo como as Vargens.

A porta do saguão se abriu por inúmeras vezes, até que em fila indiana as três Marias apontaram sorridentes. Porém, elas não pareciam em nada com a imagem que registrei no nosso último encontro. Não. Elas vinham elegantemente vestidas, enfiadas em alinhados tailers, carregando pequenas malas, como se fossem apenas passar uma tarde chique num hotel de Paris. Entre abraços saudosos de alegria e confraternização, uma Maria se antecipou dizendo:

— Leve-nos para um lugar bem animado, por favor. Queremos experimentar a bebida mais saborosa que essa cidade possa oferecer, preferencialmente com o teor etílico elevado, como uma taça de vinho, para que possamos relaxar da longa e exaustiva viagem. Nunca mais faço um voo com escala — ela sentenciou.

A segunda Maria completou:

— O voo realmente foi muito cansativo e desgastante, mas saber que seríamos recebidas por ti, encheu o meu coração de expectativas e alegrias. Como você está bonito, Zé. Preciso dizer que o tempo só lhe faz bem.

De mamãe ouvi:

— Como sinto saudades de ti, meu filho. Estou muito ansiosa para encontrar Margô.

Assim, naquele instante, tive o tom preciso e exato do que seria aquele encontro, e dos dias que estavam por vir, demovendo-me completamente da ideia de que eu conduziria três simpáticas velhinhas em passeios vespertinos pela cidade. Sobremodo que, nessa altura das suas vidas, e bem longe dos olhares vigilantes dos seus maridos, elas certamente iriam aprontar.

Comentários: 3
Marlene Publicado em agosto 13, 2011 às 11:48 am   Responder

Amado sobrinho, toda tua história me levou de volta para estes dias maravilhosos. Estava anciosa para ler o que irias escrever. Me sinto a pessoa mais feliz por ser uma dessas Três Marias. Sabe, querido, o mundo da tantas voltas que espero chegar neste lugar abençoado novamente. Quero sorrir o sorriso mais verdadeiro, o abraço mais sincero, e ter olhar mais cheio de admiração, Quero tudo de novo e como quero. Você é um ser humano iluminado, pois só alguém com tua luz para estar à disposição de três senhorinhas bem espertas (rsrs). Te amo, querido. Papai do Céu não te botou em vão em nossas vidas. Como diz um amigo em comum: pessoas tem cheiro e ê tem cheiro de amor!

Ivania Publicado em agosto 16, 2011 às 2:13 pm   Responder

Nossa ansiedade era tanta e o medo de estarmos sozinhas, num lugar distante, também. Mas ao mesmo tempo nos sentíamos seguras de ter uma a outra, como na infância. Logo entrando no avião, nem reparamos a ordem dos assentos, apenas no acomodamos e deixamos a Maria mais elétrica ao lado da janela. Ansiosas com o desembarque, com o encontro com nosso querido João, só pensávamos em como seriam aqueles próximos dias, longe de maridos, das contas, filhos, preocupações. E assim foi, dias simplesmente maravilhosos.

Viviane Publicado em agosto 16, 2011 às 2:21 pm   Responder

Posso dizer que pude viver junto com as Marias a ansiedade dessa viagem: a alegria, o frio na barriga. E foi tão bom, pois o retorno delas foi de puro encantamento. Toda expectativa valeu a pena, seja pelo o que vimos nas fotos, seja pelas lembranças, seja pelas belas histórias.

Comentar

  • Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

    Mais publicações