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Velha Infância
On agosto 13, 2011 | 4 Comentários

Não foi difícil para que as três irmãs esquecessem a idade que tinham, e que o tempo havia passado. Muito pelo contrário, o mais fácil de tudo fora voltar no tempo para viverem como se ainda tivessem nove anos de idade, como se ainda fossem crianças. Trocaram de roupas entre si, emprestaram perfumes e maquiagem uma para outra, sendo que uma delas aventou a possibilidade de arrumar um novo namorado de tão linda e feliz que se encontrava. Depois de alguns anos distantes, cada qual formou um novo perfil de personalidade, mas nenhuma havia abandonado de fato a essência daquilo que fora um dia. A primeira se manteve convicta nos princípios Cristãos que aprendera ao longo de uma vida tradicional e conservadora, ao lado do marido. A do meio, um pouco mais tímida, não se importava muito com o que os outros pensavam a seu respeito, tratando todos sem distinção, fazendo-se primordialmente calar para ouvir. E a última, a mais nova, por sua vez, já havia nascido debochada, era temperamental de berço, sempre reclamando que não havia levado o mesmo nome de batismo que as outras duas irmãs, travando brigas homéricas com as professoras. No colegial, teimava em assinar outro nome que não o seu, e exigia ser chamada pelo mesmo nome que as outras irmãs: Maria.

A do meio era considerada a irmã apaziguadora. Aquela que fazia o impossível para que a família fosse mais unida; para que todos mandassem notícias; para que se lembrassem uns dos outros não só em datas festivas. Como a mãe falecera muito cedo, ela acabou por ocupar o lugar maternal e tratou de educar e criar a maioria dos seis irmãos. E sentia-se, com isso, realizada e feliz. Talvez tivesse se dedicado um pouco mais se a vida tivesse sido mais fácil, ou se o marido não fosse tão resmungão. A mais velha, por sua vez, lembrou que, quando criança, lá pelos nove anos de idade, a mais nova ainda era um bebê e, por isso, não haviam brincado juntas. Que antes mesmo da garota dar os primeiros passos, a vida tinha tratado de separá-las. Mas, naquele dia, sorridente e feliz, falou que agora tudo seria especialmente perfeito.

Convidei-as para um passeio no Jardim Botânico, imaginando que elas viveriam algo diferente que, talvez, a infância não tivesse experimentado, tendo a mim como motorista e anfitrião — no meu local de ofício — com os rostos tomados de expectativa e alegria. Para mim, o Jardim Botânico era um dos lugares mais belos do Rio de Janeiro, concentrando a maior biodiversidade de espécies de plantas nacionais e estrangeiras, numa das maiores áreas verdes preservadas dentro de um centro urbano, contemplando monumentos históricos e arqueológicos de uma época imperial. Embora tivéssemos visitado todos os lugares turísticos da cidade, como o Corcovado e O Cristo Redentor; da praia do Leme à Grumari; do centro antigo ao samba da Lapa, como elas haviam anunciado inicialmente, foi ali, no Botânico que, de alguma maneira, elas voltaram para algum lugar distante de suas vidas, resgatando e conectando laços de uma inocência que ainda não tinham vivido. Como narrador e espectador absoluto do que as três irmãs viveram, testemunhei o lado mais ingênuo e inocente que o homem — na sua melhor essência — era capaz de expor e experimentar.

Naquele momento, desconheci a pressa, me desliguei do relógio, do telefone celular, da mente agitada pelo trabalho e pela cidade, como que num transe eternizado pelo que é mais puro e belo. Não importava a direção que elas escolhessem, nas trilhas que se apresentavam à frente, pois qualquer caminho as levaria para um passado distante, traduzindo-se em euforia e lembranças, em sorrisos largos, em um lindo dia de sol, presenciado pelas belezas das vitórias-régias, das orquídeas, das palmeiras-imperiais, dos aromas e dos cheiros. Elas estavam ali, com suas almas cândidas, complacentes e por inteiro.

— Dê-me sua mão — disse a irmã mais velha.

— Não corra tão rápido que posso cair e quebrar um dente, ou sujar a minha saia pregueada, sua espoleta.

— Não seja tola. Dê-me sua mão e vamos subir neste coreto e fotografar. Quero que você se debruce sobre este pequeno parapeito e observe a água que corre por entre as pedras lá embaixo — disse a outra irmã que portava a máquina.

— Veja se estou bem posicionada — exigiu a terceira irmã, pedindo certo cuidado com a luz para que parecesse bem jovem e bela na foto.

— Você exagerou no batom — advertiu a outra.

— Você esqueceu de que mamãe nunca gostou?

Elas corriam e riam em demasiado uma da outra, por quase nada, como se ainda tivessem nove anos de idade. Uma delas se escondeu atrás dos grossos troncos das palmeiras imperiais, como se alguém do Antigo Império as observasse; como molecas e meninas que não se cansavam de brincar. Sentei-me num banco distante e passei a observar o que acontecia diante dos meus olhos. Diferente das Marias, o meu corpo já dava os primeiros sinais de cansaço. Acho que naquele dia vivemos um pedacinho do céu. Nunca mais me esquecerei das cenas que testemunhei e que, secretamente, me emocionaram. Elas — as três Marias — precisavam viver aquele momento que, de alguma maneira, por alguma força desconhecida, aconteceu só agora. Não por acaso, aquilo ficaria registrado pelas lentes de uma máquina fotográfica, mas, sobretudo, estaria gravado em nossas memórias, em nossas melhores lembranças, e também em algum lugar das nossas existências.

Comentários: 4
Marlene Publicado em agosto 13, 2011 às 2:01 pm   Responder

Querido Zé, esta história é tão verdadeira quanto a nossa existência. Como foi bom ler tudo isso. A minha estada em tua linda cidade foi maravilhosa. Brotam-me as lágrimas ao ler tua crônica, pois foram momentos tão especiais e intensos que nos lavam a alma de tanta alegria. Essas lembranças me fazem voltar à infância, quando ciganos acampavam perto de nossa casa. Lembro-me que eles queriam me levar junto, pois das Três Marias eu era a menor, de longos cabelos loiros, de olhos verdes e tudo o que os ciganos não tinham. Para meu alento, tinha duas Marias que me cuidavam e protegiam, pois nossa mãe estava sempre ocupada e preocupada em por o pão sobre a mesa. Nossa vida não foi fácil, mas quando é muito fácil também não tem graça. Assim podemos rir de tudo sem culpa, pois são sorrisos de amor, de cumplicidade e muito carinho. São sorrisos que só as Três Marias, que se amam muito, podem ter. Mais uma vez obrigada por fazer parte de nossas vidas, e àquele sobrinho que eu já adotei!

Alex Cristovão Publicado em agosto 13, 2011 às 8:58 pm   Responder

Zé, o texto, a tua poesia parece ter parado o tempo. O meu tempo! O meu presente reencontrou com o meu passado. Como num sonho! Através da tua escrita reencontrei a minha infância, a minha inocência. Reencontrei os meus avós, meus primos, amigos. Momentos e lembranças que me fizeram feliz. A alegria agora guarda o meu coração. Que belo reencontro. Inexplicavelmente como nos contos de fadas, fui parar dentro da tua história. Da história das três Marias.

Viviane Publicado em agosto 16, 2011 às 1:49 pm   Responder

Enquanto uma das Marias lia o texto, em voz alta, pude imaginar o que aconteceu nesse dia. Vendo as fotos, imaginando conforme a narrativa seguia, pude viver esse momento tão especial. Quem bom que você fez parte dessa regressão, dessa volta aos nove anos de idade das nossas queridas Marias.

Ivania Publicado em agosto 16, 2011 às 1:55 pm   Responder

Eu, como uma das três Marias, posso afirmar que nesse dia pude voar. Esse texto me fez reviver aquele momento. E voltando, posso afirmar como fui feliz. Ali pude ver o quanto a gente se ama, e só posso concluir que nossas almas já viveram juntas em outras existências. Aproveitando, quero deixar registrado aqui a minha gratidão. Ter vivido aqueles momentos foi tão mágico. E só temos que agradecer a você, nosso querido João, pelos maravilhosos dias infantis que pudemos viver, como se ainda fôssemos as mesmas crianças.

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