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A Primeira Vez
On outubro 5, 2011 | 1 Comentários

Era cedo demais para que ela começasse a amar. O corpo um tanto magro revelava as pernas longas, ainda desproporcionais ao tamanho do tronco, e os pequenos peitos cabiam desajeitados no sutiã. O vestido que usava era costurado no tecido de chita, bem à moda antiga, que ela adorava. O namorado, visto que era um pouco mais velho, já se dizia pronto para sua primeira paixão. Mas ele nem percebeu que a imaturidade da moça, entretanto, fosse uma determinante que pudesse atrapalhar e levá-lo ao nocaute. E, de fato, o pobre rapaz se deu mal por ter escolhido a moçoila mais linda e encantadora que cruzou o seu caminho.

Ainda pequeno, nem entendia como as relações se davam, mas fui testemunha ocular de um amor inacabado, interrompido pelo tempo e pela indiferença dela. Coisa que só fui entender algum tempo depois. E não teve jeito, de nada adiantou que ele insistisse. Ouvi, por um longo período, que o mais sensato para aquela moça perdida no mundo, e na ilusão daquilo que nunca aconteceria, já sem pai, nem mãe, e nem conselheiro algum, seria aceitar o pedido de namoro. Todos achavam que, com isso, ela tomaria rumo na vida, mas não teve jeito, nem a súplica da irmã mais velha para Santo Antônio resolveu o dilema. Amor incompleto, não correspondido, é motim incentivador para o drama do poeta. O tempo passou para ela e o namorado e, talvez, por força do destino, cada qual tomou rumo na vida, seguiu outro caminho, se reinventou na história, providenciando outras aventuras, novas paixões, e um amor para cada um.

O rapaz se tornou um cara bem sucedido, se deu bem no trabalho, construiu uma confortável casa na cidade e outra na praia, comprou um carro importado, se casou com uma bela mulher e com ela teve dois lindos filhos. Ela conheceu um rapaz sedutor, metido a malandro, mas dizia que o sujeito, apesar de bom, muitas vezes se equivocava nos conceitos da vida. Passava horas na frente da televisão, jogando videogame, e aos domingos ia de moto se entreter com rixas de galo. O trabalho, para ele, ocupava o segundo plano das prioridades e a falta de dinheiro não era exatamente um problema, esquecendo-se de dedicar a atenção necessária ao casamento, para a manutenção saudável, para, quem sabe, fazer nela um filho.

Hoje, por volta de cinco da tarde, recebi um telefonema que atualizava as novidades, que agradecia os anos de amizade e que, surpreendentemente, revelava o seu reencontro com o primeiro amor, com a fala tímida e constrangida, que me fez lembrar de Zeffirelli e seu clássico Amor Sem Fim. E cale-se quem de nós não experimentou o seu primeiro e inesquecível grande amor, daqueles que fazem o corpo estremecer na presença e adoecer na ausência; que fazem o coração acelerar palpitado e a alma enternecer. Do outro lado da linha, ela contava que, certo dia, atrás do balcão da loja onde trabalhava há muitos anos, fora surpreendida com a chegada de um senhor altivo, de cabelos grisalhos, muito charmoso, que perguntou se os artigos artesanais eram produzidos ali. E, distraída, ao afirmar que sim, que eles eram confeccionados por ela mesma, fora então reconhecida.

— Meu Deus, que agradável surpresa! — exclamou o mais novo cliente, reconhecendo o rosto dela que, depois de tanto tempo, havia naturalmente enrugado e envelhecido. Mas, ao sorrir, o inesquecível e profundo olhar azul, revelava a mesma doçura e juventude de antes. E meu ouvido, grudado curioso e na expectativa ao telefone, ouviu a mais bela história de amor, como se fosse um romance de cinema, como se fosse um filme de Zeffirelli. No discurso apaixonado, ouvi uma adolescente de cinquenta e poucos anos, que se entregava ao beijo, como se fosse o primeiro beijo; e ao abraço, como se fosse o primeiro abraço, com a nítida vontade de ficar junto dele, como se ainda tivesse quatorze anos de idade, como se ainda fosse a primeira vez.

Comentários: 1
Claudia Castro Publicado em janeiro 3, 2015 às 1:34 am   Responder

É assim mesmo, todo grande amor nos faz pensar que é impossível, o coração bate tanto, que só falta pular do peito! As pernas? O chão parece faltar! E de tão grande, qdo o amor é, parece que temos medo até de beijar.

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