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Cidade Sem Fim
On fevereiro 15, 2012 | 5 Comentários

Quando jovem, apesar do porte magro e esguio, o que mais chamava à atenção das pessoas era o meu jeito manso e tranquilo de falar. Numa observação mais atenta, logo se identificava que eu não era natural dali. Talvez fosse de um lugar distante, talvez de uma congregação, talvez do mosteiro, talvez do estrangeiro. O mais certo é que a minha postura altiva e serena, não condizia com os malandros que povoavam as rodas sociais daquela cidade. Pacato, o pequeno povoado onde nasci era predominantemente habitado por cristãos adeptos ao pensamento protestante de Lutero. Distinto, a verdade é que eu era dono de uma discrição digna de um monge do claustro. Com a voz suave e os gestos comedidos, atingia facilmente, a cada pequena pausa de raciocínio, a medida exata daquilo que pretendia falar. Não que meu interlocutor me entendesse com exatidão. Todavia, a prontidão estava garantida caso fosse necessário me explicar mais de uma vez, mesmo que a timidez me assaltasse e me fizesse ruborizar o rosto e a face. Outro dia, no entanto, li algo que dizia que Deus havia contemplado o homem com dois ouvidos e apenas uma boca. Assim, a máxima da sabedoria milenar me fez entender e aperfeiçoar a arte de escutar. Para cada duas frases proferidas, outras quatro precisariam ser ouvidas e compreendidas primeiro, e assim sucessivamente. E, no respeitável exercício do silêncio e do ouvir, depois de longos anos de treinamento, me tornei um sujeito mais observador, desenvolvendo um lado mais intuitivo.

Na juventude, de tudo tentei um pouco. Fui arquivista, escriturário, vendedor de livro e seguros de carro e de vida. Fui roteirista, socialista partidário e, logo depois, virei roqueiro. Tentei a Federal, não passei no vestibular, e virei ouvinte privado. Dei aulas de ginástica, conheci a Ioga e, bem logo, estudei e me adaptei à filosofia espírita. Quis ser promotor público, juiz, jornalista e ativista. Pintei três quadros, cujo destino fez com que a empregada ateasse fogo, achando que aquilo não se tratava de arte, muito menos de erudição. Lia o horóscopo no jornal diariamente, joguei as cartas do tarô, em busca do destino e saí na coluna social, fugindo da policial. E concluí que o melhor mesmo era ir embora, assim, saindo de casa, da segurança e da superproteção dos pais.

Casei-me. Separei e casei-me de novo. Recomeçar, contudo, não era tarefa fácil. Exigia esforço, dedicação, foco e também dinheiro. A sabedoria do tempo, entretanto, já havia me concedido uma pequena bagagem repleta de conhecimento, o que seria deveras importante e necessário. Quando parti do primeiro casamento, decidi levar apenas uma mala intelectual, carregando comigo alguns livros e CDs que tocavam na lembrança o afeto e a admiração dos dias felizes que vivi. A partir dali, seriam eles a minha única companhia. À época, pensei em viver em New York. Depois pensei em Londres, em Sidney e Toronto, desembarcando na não menos poética e urbana ilha de Florianópolis, na capital de Santa Cataria, no exato coração de Gabi, uma morena linda, de cabelos longos e olhos negros, com quem dividi experiências, expectativas, sonhos e boa parte da juventude.

Diferente do povoado onde nasci, a metrópole tinha dessas coisas que só se via na televisão, nos filmes. Tinha asfalto e muito concreto. Tinha arranha-céus que subiam até onde a vista alcançava e outros que caiam sem explicação. Tinha bueiros e também bueiros que explodiam. Tinha aeroporto, rodoviária, e aeroporto pior do que rodoviária falida. A vida não era fácil no centro urbano. Era competitiva e cara. E tinha gente, muita gente.

Fui à New York por conta do trabalho de repórter que me transferira para uma importante subsidiária, imaginando que lá seria o lugar ideal para viver e morar, especialmente se fosse próximo ao Central Park, para ficar mais próximo à natureza, às plantas e às flores. Gabi não quis me acompanhar. A Broadway, por sua vez, tomada por luzes de neon e cartazes que anunciavam pulsantes a próxima atração do show business, exercia em mim um fascínio traiçoeiro, de forma que eu depositava pratas e mais pratas para acompanhar uma quantidade extensa de estreias sem fim, todas belíssimas, de pura arte, que encantava demasiado aos olhos, elevando os sentimentos, a alma e o coração. Tempos depois, surgiu um novo convite para conhecer Paris. Ah… Paris! Visitei o Louvre, o Musèe Grévin, a Champs Eilsée, o Lido e o Moulin Rouge, até cair no submundo dos cabarés do Pigalle no Boulevard de Clichy e me arrepender. O tempo passou e, depois de muitas aventuras, me dava conta de que o meu destino andava displicente, meio sem sentido e solitário e que, no fundo, ele estava mesmo é na ilha de Florianópolis. Era lá o meu lugar — acreditava —, ao lado de Gabi.

As pessoas na ilha, porém, eram diferentes de mim, culturalmente diferentes. Envolvi-me numa sociedade extremamente restrita, abastada e egoísta. Aquilo não fazia gosto nem parte do meu mundo. Elas bebiam Dom Pérignon no gargalo; embriagavam-se de Johnnie Walker envelhecido por vinte e um anos; e arrotavam suas arrogâncias pseudocivilizadas nos sujeitos menos afortunados da cidade — ou de má sorte — como eu.  Experimentei a luxuria e a soberba; experimentei o pato do Himalaia, uma ave rara, e as ovas dos peixes exóticos que proliferavam abundantes nas águas geladas do sul do pacífico, que chamava caviar. Meio deslocado, vivi pouco tempo ali. Embora tardio, com o passar do tempo, entendi que aquilo não era para mim; que aquele não era o meu lugar, definitivamente.

Dos amigos da minha história, sinto muitas saudades. Eles eram tantos e a vida os levou de mim. Alguns ainda vivem, mas outros queridos já se foram, partiram dessa, talvez, para uma melhor. Tive todos os tipos de amigo, bons e maus; pacíficos, agradáveis, fiéis e também cruéis. Deles ouviu de tudo, acompanhei de tudo. Servi-me dos meus amigos e os servi também. Alguns me ofereceram amizades momentâneas, frívolas, oportunas e passageiras. Já outros, me ofereceram sorrisos sinceros, apoio, lealdade, cordialidade, momentos de cumplicidade, de companheirismo, de alegria, nostalgia e solidão. São esses os amigos que hoje quero me lembrar e eternizar para sempre num lugar especial de boas lembranças.

E, apesar de chamar atenção pelo jeito diferente e tranquilo de falar, nunca seria igual ao povo da ilha, aos nova-iorquinos, aos londrinos, aos canadenses, aos parisienses, sobretudo. Meus trejeitos e a minha maneira simplória de ser, estavam registrados em algum lugar da minha personalidade, do meu inconsciente, no meu DNA. Houve uma época em que duvidei de que o meu lugar fosse distante da serena e pacata cidade onde nasci. Foi lá o começo de tudo e, certamente, será o fim. Era nisso que eu pensava até que conheci Margô, a mãe de Flor, por quem me apaixonei no primeiro olhar e quem me fez entender que, mesmo distante, havia outras moradas como as Vargens, num lugarejo tipicamente pacato e rural, tomado de calçadas e jardins floridos e primaveris, no entorno das grandes cidades, onde os sujeitos mantinham a mente serena, o coração desacelerado e feliz, com ambos os pés cravados no chão.

Comentários: 5
Marlene Publicado em fevereiro 23, 2012 às 11:15 am   Responder

Linda história que nos leva a pensar sobre nossa vida. Como é bom ter raízes para lembrar, lugares para voltar, e pessoas para amar. Pois amigos são pessoas que podemos escolher para nos acompanhar em parte de nossas vidas, e que seja eterno enquanto dure. Parabéns, meu querido. Você é sempre tão especial nas palavras. Te amo muito, com todo meu coração. Da sua sempre Tata.

Lucimar Publicado em julho 27, 2014 às 11:39 pm   Responder

Como amante da arte, seu texto me arrepiou. Acho fenomenal e as pessoas deveriam ver que sua mente vai muito além de seu tempo e até mesmo do nosso.

Jacqueline Gimenez Publicado em fevereiro 23, 2012 às 10:40 pm   Responder

Metrópole tem dessas coisas que ele só via em filme. Tem asfalto e muito concreto, tem arranha-céus, tem arranha-céus que caem. Tem bueiros, tem bueiros que explodem. Tem aeroporto, tem rodoviária, tem aeroporto pior que rodoviária. E a vida não é fácil, é cara. Tem gente, tem muita gente”. Assim fala de minha São Paulo, fala de minhas escolhas. Fale sempre assim… para nós ouvirmos com ouvidos de jovens ciganos ao redor da fogueira, fogueira de ideias, sonhos e amores. Beijos.

Rafael Fajardo Publicado em fevereiro 24, 2012 às 12:10 pm   Responder

Uma bela história realmente. Parabéns meu amigo pelo trabalho incentivador. Abraços… do seu amigo paranaense.

Lis Publicado em março 11, 2012 às 11:49 pm   Responder

Esse por acaso é um auto-retrato??? Nossa, que lindo! A única parte triste é a que fala que sobraram apenas 2 bons amigos pra Itaipava gelada!!! Até pq eu gostaria de ser um deles!!! Saudade quando não cabe mais no peito transborda nos olhos! Essa semana tô atribulada com casamento do meu irmão mas semana que vem quero marcar nosso chima, topas??? A Julia disse que gostaria de vê-lo tbm e minha mãe já pediu para eu convidá-lo pra conhecer o ap dela na Av.dasAméricas! Vc é muito querido mesmo neh!!!! Saudade e mega saudade!!!Belo texto que emociona… como sempre!!! Ainda consigo de presente um livro com todos os teus textos e uma dedicatória é claro!!!

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