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A Tal Felicidade
On janeiro 2, 2013 | 5 Comentários

Era uma noite de abril e o piso de madeira não estava tão gelado quanto o piso de cerâmica da antiga moradia. Margô e eu adorávamos andar de pés descalços pela casa nova, um hábito que não perdemos até hoje. Do mar, por detrás das montanhas, podíamos sentir a brisa gelada do outono que, quando tocava a pele, dava uma sensação agradável de frio, como se os ventos vindos do sul tivessem soprando nas barbas do equador tropical. Na casa ao lado, o vizinho ouvia uma música instrumental com alguns decibéis acima, que mais parecia uma ária de Bach. Morava ali um senhor solitário, de cabelos brancos, aparentando cerca de oitenta anos de idade, que se comunicava facilmente com a maioria dos moradores do bairro e se chamava Vicente. Naquele início, embora nos víssemos diariamente, eu ainda não havia trocado uma única palavra, além do cumprimento formal e o aceno, com aquele senhor. Já era noite e decidimos nos recolher. Recém casados, Margô me fez uma pergunta simples antes que adormecêssemos, porém inquietante.

— O que é a felicidade para você, Zé?

— Para mim, felicidade é estar ao seu lado, Margô.

Pensei, inicialmente, que aquela resposta era relativamente ingênua. E, por fim, conclui que estava com dificuldades para formular uma opinião mais complexa, visto que Margô me pediu detalhes sobre o questionamento. Pedi, então, um tempo para pensar, para dar um mergulho profundo na condição humana e verificar o que encontraria sobre a tal felicidade. E, num repente, adormeci.

— Você consegue ver a distância que aquele fecho de luz atinge? Se olharmos com maior atenção, dá para ver as diversas cores que se espargem até a linha do horizonte. E a relva molhada sobre nossas roupas? Você não acha refrescante? Como você se sente?

— Sinto-me bem, mas estranho a intimidade com que o senhor fala comigo. Tenho a impressão de conhecê-lo de algum lugar, mas não me recordo ao certo de onde. É como se nos conhecêssemos há tempos e por isso a proximidade com a sua imagem aumenta à medida que dialogamos. Onde estou? — indaguei.

Um breve silêncio se estabeleceu entre mim e ele, como se fosse o tempo necessário para a formulação da resposta. Mas, inquieto, acrescentei:

— Sinto uma paz enorme, como se estivesse no céu. Consigo respirar com facilidade e o ar, de tão puro, entra livremente por minhas narinas, geralmente obstruídas, enchendo profundamente os meus pulmões, como se nenhuma obstrução impedisse a minha felicidade. Não sinto nenhuma dor, nem nas costas, nem nos ombros, nem nos músculos como sinto costumeiramente. E mais ao fundo, ouço algumas notas musicais bastante longas, diferente do ritmo frenético que gosto de ouvir. O que aconteceu comigo? — insisti.

— Olhe a sua volta. Sinta esse aroma, esse perfume. As cores não lhe parecem mais belas e vibrantes? As flores e todas essas rosas não lhe parecem primaveris? — indagou o velho senhor.

— Se aqui não for o céu, tenho a impressão de que me enganaram por uma vida. É exatamente assim que imagino o céu, com suas nuvens em tons dourados e róseos, embaladas por melodias de notas contínuas e longas; com flores de azuis sortidos e desconhecidos; com o sol de frescor eterno e com a leve brisa que, quando toca a pele, sente-se o ar gelado do mês de abril. A sensação me parece tão boa que tenho vontade de eternizá-la, mas, por outro lado, me preocupa se o tédio, tão próprio de nós humanos e mortais, se manifestar.

— Você não sabe o que diz, meu querido e jovem amigo. Você ainda não experimentou um décimo do prazer que se sente quando se está no Céu. Aqui é igualzinho ao lado de lá, mas não encontramos as mazelas e as chagas que tanto atrasam o desenvolvimento do homem. E temos muitas festas aqui, de forma que ninguém experimenta o ócio, tampouco o tédio — avisou o senhor. E, sem esforço algum, o velho enumerou algumas características do paraíso que talvez me interessassem.

— Aqui as pessoas usam algo parecido com um fone de ouvidos. Assim, cada um escuta a sua música, sem a necessidade de importunar o vizinho. Aqui se fuma muito, sabia? Mas nada de folhas de fumo prensadas ou o vício tóxico da nicotina. Aqui se usa uma plantinha muito parecida com o baseado que vocês conhecem. E come-se muito pão, sendo expressamente proibido comer outros seres vivos, como os animais. Nunca deseje isso, pelo amor de Deus! Nem pense também que, por não comê-los, você será mais elevado ou puro. Homens como Hitler e Mengele também foram vegetarianos. E para completar, todos estão conectados por uma rede social de telepatia sem fio e infinita que não necessita de baterias. A comunicação aqui é algo parecido com a virtualidade que você conhece, porém, onipresente e etérea.

— Já lhe perguntei se morri?

— Você veio até aqui para buscar uma resposta. Você não lembra?

— Sobre a tal felicidade?

Ainda que Margô tivesse estranhado que uma resposta rápida e fácil não pudesse ser verbalizada e — embora verdade — tivesse dito que a felicidade era viver ao seu lado, desejei concluir um pensamento mais elevado, preferindo uma resposta bem formulada pela boa reflexão, por uma pesquisa de campo, sabendo, porém, que para a felicidade não existia atalho e que antes era preciso saber viver. Lembrei também que seres plenamente felizes eram raros de se encontrar, e que a experiência da felicidade completa e perfeita não era coisa do nosso mundo. O primeiro conceito que encontrei numa breve sindicância foi que a felicidade era um estado durável de plenitude e equilíbrio físico e mental, quando o homem experimenta a alegria, o bem-estar espiritual e a paz interior. Tanto a religião, como a filosofia e a psicologia são ciências que se debruçam pela compreensão dessa natureza, tentando entender que tipo de comportamento leva o indivíduo à total felicidade.

— O senhor é feliz? — indaguei.

— Sou feliz — ele respondeu.

— Plenamente? — persisti.

— Sou infeliz às vezes, bem como todos os outros. Ainda vivo as minhas insatisfações. Afinal, nada é tão perfeito e suficientemente completo que não possa ser melhorado, elevado e refinado.

— A incompletude talvez seja a maior angústia que experimento — pronunciei ao velho.

— A felicidade, para mim — ele acrescentou — vem acompanhada das coisas mais simples, como uma casinha no alto de uma montanha, cuja fumaça da chaminé mantém o fogão de lenha aceso e o ambiente aquecido. Nas floreiras as florezinhas são multicoloridas e delicadas. O pão é caseiro e os frutos são frescos. Os filhos são honrados e honestos para com seus pais e a aposentadoria por contribuição de tempo de serviço é garantida e logo vem. E para você, como ela é? — perguntou o senhor simpático, de cabelos brancos, com um olhar despretensiosamente debochado.

— Acho que a felicidade é feminina e seu cheiro é doce. Deve ser alva e esbranquiçada para uns e colorida para outros. Não tem raça, não tem idade, não tem orientação sexual e se manifesta ao gosto de cada um. Pode ser rico ou pobre, negro ou caucasiano, sadio ou doente, positivo ou negativo, yin ou yang.

— Faz algum sentido — disse o senhor.

— Acho que a felicidade não é um estado contínuo do mundo terreno, acredito. Ninguém está feliz permanentemente. A tristeza, assim como a alegria, são estados ilusórios, experiências passageiras no mundo que conhecemos. No entanto, se eu pudesse arriscar um breve palpite, diria que se você estiver presente em si mesmo, não se abandonando nunca, de certa forma estará experimentando a felicidade, de um jeito ou de outro.

— Compartilho dessa visão, meu jovem.

— Agora, meu pensamento parece se clarear um pouco e a sua imagem começa a vir à minha lembrança. Por que ainda não tínhamos conversado?

— Talvez você não tenha prestado muita atenção em mim, embora lhe acene diariamente. Mas, a partir de hoje, tudo pode ser diferente se assim você desejar. Você gosta de ópera? Que tal um réquiem de Mozart? Estamos a poucos metros de distância — falou o senhor, enquanto os primeiros raios de sol entravam pela janela do quarto.

— Acorda, Zé. Já amanheceu e faz um lindo dia lá fora — sussurrou Margô, em meu ouvido, delicadamente beijando meus lábios.

— Tive um sonho tão lindo que se eu pudesse continuaria dormindo por um longo tempo, meu anjo.

— Vejo em você um sorriso alegre e juvenil — observou a minha doce mulher.

— Será que podemos encontrar a alma de alguém num sonho, quando adormecemos, Margô?

— Disse um filósofo que somos seres espirituais, vivendo uma experiência humana neste planeta. Que toda vez que dormimos, voltamos ao nosso estado de origem. E que lá as nossas almas se encontram. Dizem também que devemos buscar as respostas para as nossas dúvidas nos sonhos, porque neles encontramos almas mais experientes, mais evoluídas do que as nossas, para nos auxiliar e responder. Você acredita?

Permaneci ali, afundado no travesseiro, por mais alguns instantes, divagando nas lembranças do bom velho, naquela profusão de ideias e pensamentos sobre o que é a tal felicidade, imaginando as possibilidades e escolhas que nos fazem mais ou menos alegres e completos, mas sem conseguir formular um conceito definitivo sobre o que é a felicidade plena, até ser novamente interrompido por Margô.

— Você já tem a minha resposta?

— As respostas para os nossos maiores dilemas estão no mundo daqui, mais próximas do que imaginamos.

— Como assim, meu amor?

— De certa forma, quando as rugas tomam o nosso rosto e os cabelos se tingem de branco, nos tornamos jovens de pensamento e sabedoria.

— O que você quer dizer com isso, Zé?

— Que tal se nos aproximássemos um pouco mais do nosso vizinho Vicente?

Comentários: 5
Lis Blanco Publicado em setembro 21, 2012 às 7:35 pm   Responder

“estiver presente em si mesmo, não se abandonando nunca, você já está feliz” Tá faltando isso em mim!!! Suas palavras me tocam! Sempre! Sua amizade foi assim, parecia que já te conhecia há muito tempo!

Alan Cristovão Publicado em setembro 21, 2012 às 8:32 pm   Responder

Também já me peguei pensando na felicidade muitas vezes… Ainda não consegui chegar a nenhuma conclusão, mas acho que está realmente dentro de cada um de nós! É muito pessoal, cada um é feliz do seu jeito ou de um jeito diferente! Bom texto para nos fazer refletir… Abços.

Sandra Fortunato Publicado em setembro 21, 2012 às 10:06 pm   Responder

Muito bom… Parabéns.

Marlene Publicado em abril 30, 2013 às 10:05 am   Responder

Felicidade… O que será que significam estas 10 letras? Pergunta que cada pessoa terá sua resposta. Umas são felizes só por estarem vivos, outras por terem saúde, outras por encontrarem um amor, por ver um lindo dia de sol, por ver uma linda lua no céu, por ter uma família ao qual possam amar, ou por coisas tão pequenas que às vezes não damos valor, mas que são parte do nosso dia a dia. Mas agora vou dizer que para mim felicidade se resume a tudo isso junto, e não esquecendo de um belo sorriso a cada novo dia. Te amo, querido. Bjos da tia Tata.

Franklin Macedo de Medeiros Publicado em agosto 8, 2013 às 11:01 am   Responder

Fiquei extremamente feliz em ler. Obrigado você nos ensinou.

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