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Prazer em Conhecer
On outubro 3, 2013 | 10 Comentários

Ao cair da noite, Margô e eu costumávamos contemplar o silêncio de um mesmo local, de um mesmo cenário, como se aquela rotina fosse um ritual diário de libertação. Ao fundo, o contorno da montanha era projetado pelas luzes da cidade. Das residências à volta, percebiam-se apenas as nuances das cores projetadas nos ambientes pelos lustres e abajures. E, ao longe, ouvia-se o canto das garças e de alguns pássaros que pareciam cantarolar risonhos que, ao se revelarem, faziam propagar o manifesto de vários outros bandos. Talvez, aquele fosse o momento mais oportuno e solitário para que nos olhássemos para si mesmos, para que nos desligássemos do mundo lá fora por alguns instantes. E realmente conseguíamos, por no máximo, uma hora. Diga-se, controlados pela respiração da meditação e nos autoproibindo de tocar em qualquer dispositivo.

Cravados sessenta minutos, antes de voltarmos ao mundo real, ou de abrirmos qualquer conexão virtual, Margô perguntou:

— Qual será a força que nos une? O que será que nos conecta física ou virtualmente a uma vastidão de outras pessoas, muitas delas estranhas e desconhecidas, mas que agora, de alguma forma ou de outra, fazem parte de nossas vidas?

Um breve silêncio se fez e antes que eu dissesse qualquer palavra, ela se antecipou com novas indagações:

— Será uma crença, um vício, uma filosofia? Será que estamos apenas ligados pelos amigos em comum, por nossos pares, por similares, por grupos? Quem sabe pelos gostos, pela preferência do vermelho, por gostarmos do mesmo perfume de uma flor, por torcermos pelo mesmo time de futebol, por admirarmos as mesmas orquídeas e flores do Jardim Botânico?

Particularmente, acredito que pessoas se aproximem por crenças, por ideologias. Familiares são consanguíneos e, geralmente, se aproximam em festas, em confraternizações, mas também na dor. Amigos se reúnem para um churrasco, para a jogatina, para um brinde, depois partem. Parentes aparecem em festas de aniversários. Condôminos se reúnem em assembleias. Fieis rezam missas aos domingos, agrupados. Centrais sindicais representam trabalhadores. Algumas categorias, porém, não sabem a que sindicato pertencem. É como se existisse um fio condutor de elétrons, um ectoplasma que liga uns aos outros, que nos estimula e atualiza, que por sua vez nos liga a tudo aquilo que acontece no tempo presente, que aconteceu no pretérito, ou que acontecerá no futuro, nos vários tipos de experiências, nas várias ciências e filosofias, aqui e além.

— E se cortássemos esse fio condutor? — ela perguntou, curiosa.

— Uma parte se desfaria, morreria talvez — arrisquei, argumentativo.

— Fazendo uma analogia, nossos mortos só existem enquanto nos lembramos deles. É assim também com o nosso passado, que só existe em nossas memórias e, por melhor sorte, nas obras que construímos, que concebemos, que parimos, que edificamos e materializamos. Logo, se essas memórias deixarem de existir, podemos dizer que o que antes estava unido, agora nos desligou?

Aquilo me fez lembrar que antigamente a gente chamava os amigos em casa para mostrar o álbum de fotografias que revelava os melhores momentos de nossas vidas, as boas lembranças da última viagem. Hoje, no entanto, não mais é necessário encontrar. O sujeito pode postar o álbum em uma rede social. Assim, virtualmente, toda a sua rede poderá compartilhar dos seus momentos privados de alegria, no conforto de seus sofás.

— Você acha isso ruim? — perguntei.

— Talvez — ela respondeu.

— Será que a virtualização nos tornará cada vez mais distantes uns dos outros? Se, por um lado, as redes sociais reencontram pares, aproximam indivíduos, por outro, distanciam e esfriam as relações. Acho um pouco cedo para apontarmos um pensamento antropológico ou social fechado, apesar deste caminho sugerir um destino sem volta, como se outro de nós passasse a coexistir, talvez como personagem, como avatar.

— Não conheço pessoalmente muitos dos meus amigos das redes sociais, mas acho curioso o fato deles fazerem parte da minha vida. Não sei por que estamos conectados, mas nossas vidas estão lá, expostas ainda que reservadamente para um público selecionado, com nossas alegrias sinceras ou inventadas, com nossas tristezas aparentes ou permanentes. Eles e nós, cada qual com uma história, um jeito, um perfil.

— Os tempos são outros, Margô. Então, deve haver uma força que nos une virtualmente também, e isso vai muito além de um cabo de fibra ótica, da simples transmissão e recepção de dados, dos sorrisos estampados nas fotos, reais ou imaginários, nas notícias que recebemos. Sabe quem pode melhor nos ajudar?

— Quem, meu amor?

— A nossa filha, a Flor.

— Você tem toda razão, Zé. Acho que estamos um pouco velhos para esse negócio de rede social?

— Você consegue ouvir o silêncio da noite? Parece que as galinhas risonhas já se recolheram na montanha.

— Será que todos veem a noite como nós vemos?

— Só as pessoas conectadas pela mesma força a percebem tão linda assim — disse, dando um carinhoso beijo e acolhendo Margô em meus braços.

Comentários: 10
Alex Cristovão Publicado em outubro 3, 2013 às 9:53 pm   Responder

Fiquei pensando o que de fato une as pessoas, e não faltaram motivos. A amizade, o trabalho, o amor, o facebook, a empatia. Hum a empatia é a vontade de perceber o outro, o que ele sente e ainda tentar compreender o seu mundo. Sentir o outro. Esse sentimento é fundamental em qualquer relação humana, e une as pessoas simplesmente na realidade e ou na virtualidade.

Patricia Medeiros Lucena Barboza Publicado em outubro 3, 2013 às 9:13 pm   Responder

Simplesmente, adorei! Não somos parentes, nem familiares e nem velhos amigos, mas nossa afinidade vai além de um convívio pessoal, vai além de alguns familiares meus! Afinidade não se explica, se vivencia e aproveita! É isso, meu amigo virtual ou mais!!!

Gilbert Diniz Publicado em outubro 3, 2013 às 9:13 pm   Responder

Saudades de ti meu amigo!

Lis Publicado em outubro 4, 2013 às 6:58 am   Responder

Ontem mesmo estava lembrando de quando nos conhecemos…primeiro éramos apenas professora e aluno que pedalavam no mesmo horario( coincidência?); depois os papos sobre o dia, sobre a vida…e não sei bem dizer o exato momento em que a amizade surgiu sublime e profunda em nosso ser. Saudade de tantos momentos de bate papo, do chimas, dos devaneios sobre o Universo…hehe!!! Comecei a sentir por ti uma amizade de alma, e mesmo nesta vida corrida dou graças a Deus por matar um pouco da saudade pelo mundo virtual, saber de ti, dos teus textos que me fazem viajar além do céu, ver pelas fotos que você não envelhece e mantém também em sua mente todas as lembranças dessa amizade. Carrego-te comigo guri…e essa saudade dos papos regados a chima!!!! Até…

Sidnei Publicado em outubro 4, 2013 às 8:27 am   Responder

“A internet é um espaço de comunicação propriamente surrealista, do qual nada é excluído, nem o bem, nem o mal, nem suas múltiplas definições, nem a discussão que tende a separá-los sem jamais conseguir. A internet encarna a presença da humanidade a ela própria, já que todas as culturas, todas as disciplinas, todas as paixões aí se entrelaçam. Já que tudo é possível, ela manifesta a conexão do ser humano com sua própria essência, que é a aspiração à liberdade”.(Pierre Levy) – Lembrei de Levy ao ler seu texto… Muito bom!

Maria Maia Publicado em outubro 4, 2013 às 11:24 am   Responder

Muito bom. Um abraço.

Darcy Heidtmann Publicado em outubro 4, 2013 às 5:40 pm   Responder

Continuo aguardando seu livro. Amizade é um sentimento que acontece, nao tem razao nem porque.A amizade sincera e como a nossa nao ha interesse nenhum ,tenho a idade de sua mae,nao e amor, nao sou rica, nao e por dinheiro, enfim e realmente um querer bem, afinidade. Somos amigos e pronto. Não precisa explicação.

Elba Publicado em outubro 9, 2013 às 12:59 pm   Responder

Talvez as redes sociais sejam lorotas, mas também é de fato um meio de aproximação entre os mais distantes (e pertos também)visto os que desse mundo já não fazem parte. Penso porém que o que pode unir as pessoas queridas, seja justamente a distância causada pela saudade. Uma tarde de garôa no aconchego do lar, uma xícara de chá, ou um cálice de vinho, talvez, e aquela ausência da pessoa querida, seja um amigo, família, uma amor no seu “eu” bem lá no fundo, você desejando a preseça dessa(s) pessoa(s). Penso que seria esta a verdadeira aproximação entre as pessoas, ao invés de algo tão distânte e tão frio sem sentimento algum que é o outro lado de um PC. E R.

Milla Valéria Publicado em outubro 9, 2013 às 10:31 pm   Responder

Olha! Estava eu a comentar com uma amiga minha sobre este presente do destino em minha vida, encontrar-me com rara pessoa como o Joseph Meyer, pois como bem diz a Darcy Heidtmann, a amizade sincera, livre de qualquer interesse (a não ser o interesse de multiplicarmos nossas energias positivas) é algo abençoado. Joseph é alguém que faz valer a pena encontrar assim… em nossa vida!

Jane Mokven Publicado em abril 28, 2014 às 10:54 am   Responder

Palavras dignas de elogios. Tão bem organizadas, concluíram um lindo texto pensado. A vida é linda, nós é que as vezes somos muito ranzinzas…

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