Antes de Cristo

A minha cabeça doía, como se tivesse levado uma forte pancada. A visão me parecia turva, como se o olho buscasse definir o foco para visualizar o que estava à frente. Ao meu lado, um senhor, com um olhar delicado, cujos cabelos de tão brancos mais pareciam feitos de algodão, ofereceu-me a mão para que eu pudesse levantar. Aos poucos, ao recobrar a consciência, vi-me num lugar completamente estranho e desconhecido.

— O que aconteceu? — perguntei ao velho senhor.

— Acredito que você tenha tropeçado e batido a cabeça nas pedras. Esta parte do trajeto é bastante rochosa e o caminho pode ficar ainda mais difícil.

— Sinto-me um pouco estranho.

— É preciso treinar e disciplinar o corpo e a mente para não tropeçar. Mas mantenha a calma que logo você ficará bem. Beba um pouco da minha água, assim você se sentirá melhor para seguir a longa caminhada.

O velho ofereceu-me um pouco da água do cantil.

— O senhor parece um anjo enviado por Deus para me salvar. Não fosse isso, eu ainda estaria debruçado no chão, feito indigente, correndo o sério risco de morrer. Só não consigo entender o que aconteceu. O que estou fazendo aqui?

— Você e todos os outros peregrinos que seguem por este caminho, vão para o recenseamento. Pelo menos, é essa a ordem de César Augusto. Sua descendência também é da família de David?

— Não compreendo o que o senhor diz. Parece que recobrei a consciência, mas não a memória. Não consigo ligar os fatos.

— Fique tranquilo e não se esforce mais do que o necessário. Não há pressa para nada.

— Se este é meu destino, não hei de hesitar. Sinto-me tão leve e livre, um pouco amolecido e anestesiado, talvez, que meus pés parecem não tocar o chão. Pode ser estranho, mas este lugar me traz uma paz tão grande, como há muito não experimentava.

O velho apenas sorriu.

— Onde estou? — perguntei.

— Logo você entenderá, meu filho. Logo você estará em Belém. Você certamente é um dos escolhidos para presenciar o nascimento do Salvador do Mundo.

E quanto mais o velho falava, muito menos eu compreendia. Julguei, no entanto, que aquilo tudo não passava de um blefe onírico, uma ilusão, mas nada perderia se desse corda para tamanho absurdo e alucinação.  Sentindo-me bem com tudo aquilo, imaginei que alguns dedos de prosa não me fariam nada mal. Ganharia, assim, algum tempo para me recuperar, resolvendo, de repente, fazer várias perguntas para o sujeito que mais parecia um personagem saído de um conto infantil, de uma história narrada por Antoine de Saint-Exupéry.

— O senhor disse que alguns serão escolhidos para ver o Salvador do Mundo?

— O Messias, o Príncipe da Paz! — ele respondeu.

Como que seduzido por algo extraordinário, e percebendo a seriedade em cada palavra pronunciada, preferi silenciar o restante das perguntas que pretendia fazer, e atento ouvi o velho senhor.

— É o Filho de Deus que nascerá de uma virgem. É Ele, o Salvador deste Mundo, que sofrerá e morrerá por vós para salvar a Humanidade. No seu semblante, ver-se-á a misericórdia, a piedade e a compaixão.

Calmamente, o velho seguiu a narrativa, dando a impressão de que a Era Moderna do Mundo Ocidental tivesse voltado no tempo, retrocedido, como se os dias do calendário litúrgico agora fossem contados a partir dali; como se a paisagem à volta tivesse se eternizado na beleza das poucas árvores, nos vários pedregulhos do chão, no leve sopro do vento, na luz crepuscular.

— O mundo se tornará uma única nação — profetizou o velho senhor —, os povos falarão uma única língua e um único governante reinará. Não haverá guerra, não haverá choro, não haverá fome. Ele vos ensinará o amor ao próximo. A ganância será banida da Terra, e o pão e o vinho haverão de abundar sobre as mesas daqueles que crerem. A natureza será generosa para quem com ela for generoso. As águas serão límpidas e de fonte infinita. No solo fértil, nascerá o alimento puro e livre das pragas e das toxinas. E o homem partilhará com outros homens, sem que com isso lhe falte, e viverá com dignidade.

Uma longa pausa se fez.

— Você deve acreditar em mim — ele insistiu.

— Esse pensamento vai ao encontro das teorias da maioria das religiões — observei.

— Será esse o ensinamento Dele — disse o velho, apontando para o céu.

— Acredito, no entanto, que ainda falte um líder de verdade para guiar a Humanidade — acrescentei, argumentando que a busca por líderes era quase intrínseca no homem.

— Creia também que você foi escolhido para presenciar o nascimento de um lindo menino em Belém, filho de José e Maria de Nazaré. E somente os homens de alma pura e bom coração seguirão por este caminho.

Não achando ruim a ideia da peregrinação que se apresentava à frente, lembrei-me da história de São Francisco de Assis, que abdicou a riqueza do pai para pregar o evangelho de forma itinerante, numa profunda identificação com os mais pobres dos pobres, dedicando-se e amando a todos sem distinção.

— É hora de partir, meu filho.

— É hora de partir — repeti, sem muita vontade.

— Não tenha medo, siga confiante.

O velho calou-se por alguns instantes e sorriu, percebendo o meu estado de declinação e dúvida.

— Haverá sábios para lhe guiar. Você os reconhecerá porque carregam consigo o ouro, o incenso e a mirra. São presentes para o Pequeno Menino. É o Filho de Deus que nascerá.

— O Filho de Deus?

Apesar do pensamento de esperança, fui assaltado pela ideia de que o Mundo precisa urgentemente se render, mudando severamente seus conceitos e paradigmas. Vivemos uma época muito difícil quando a ganância e os interesses próprios norteiam cidadãos e governos desonestos, em detrimento de uma maioria desprivilegiada. Aquilo me fez lembrar da guerra, do extermínio, do racismo, da inquisição, da violência urbana, da bomba nuclear, dos homens-bombas, da maldade, das catástrofes, da ira, do ódio e da inveja. E, respirando profundamente, na tentativa de me reencontrar, indaguei ao velho:

— Que dia é hoje?

— 24 de dezembro — ele respondeu.

— Posso lhe fazer uma última pergunta?

— Pode — concordou o velho senhor, com a cara de um anjo e um semblante acolhedor que só existia nos homens de bem.

— Qual é seu nome?

— Gabriel — ele respondeu, sorrindo.

Comentários (7)

  1. Que texto interessante.
    Será que meu inconformismo também se trata de evolução?
    Quem sabe um dia, nós, pessoas de bom coração, também possamos subir estes degraus.
    E viver em um mundo melhor.
    Será que vou identificar meu guardião, será que vamos nos reconhecer?

  2. Queria poder reconhecer cada decisão que eu tomo… em qual futuro me levará??? Não sabemos né… nem saberemos… as escolhas são sempre nossas. Por isso… o livre-arbítrio.
    De ter bom coração tô bem tranquila… mas se meus pés e minha força estarão prontos a subir esta escada da evolução… isto eu já não sei. Deixarei por conta do meu guardião!!!
    Mas uma coisa é certa pra mim… tô sempre em busca de respostas… como se eu quisesse viver primeiro o futuro e voltar pra cá… pro presente. E com relação à isso fica somente sendo 1 dos meus desejos… os outros que eu tenho vc já sabe de montão!!!!
    Te love forever… que belas palavras… como sempre!!!!
    “Inté”

  3. Zé,
    Muitas vezes o nosso mundo imaginário é muito mais verdadeiro do que o mundo real. Ele pode estar cheio de vida, de amores, de figuras que nós mesmos criamos e nossos sentimentos para com eles podem ser intensos. Talvez seja por isso que não conseguimos abandonar esse mundo imaginário, perfeito. No mundo real tudo pode ser contraditório e imperfeito. O mundo daqui também pode ser tão ilusório quando o de lá. Digamos que a vida seja composta por alguém que procuramos e que nunca encontramos… pura imaginação.

  4. A grande sabedoria do homem consiste no entendimento e na aceitação de quem ele realmente é. Para ser um bom discípulo é necessário que o homem esteja disposto à arte de aprender. E no momento em que ele souber distinguir entre o real do imaginário, ele estará pronto para ocupar a posição de Mestre.

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